Para superar o vendaval político-econômico que a Rússia enfrenta, o presidente Bóris Yeltsin acabou recuando e designou como primeiro-ministro o chefe da diplomacia russa, Eugueni Primakov, nome que foi recebido de forma positiva pela Duma, a Câmara baixa do Parlamento daquele país. É muito provável que já amanhã aquela Casa aprecie e aprove a indicação, o que em tese evitaria o pior do ponto de vista econômico: a ausência de governo em plena tormenta financeira. Entretanto, este alívio é acompanhado por outro tipo de preocupação: Primakov, político hábil, negociador sem dúvida bastante competente, foi um dos dirigentes da extinta União Soviética. E isto, para muitos, representa o temor de um retorno ao passado.
Naturalmente, sob a perspectiva democrática, este risco parece inexistir. Uma coisa é um país controlado pelo Partido Comunista, a chamada ‘ditadura do proletariado’. Outra, é um dirigente que já teve ligações com o Partido Comunista assumindo o governo sob a democracia. O restabelecimento da ditadura soviética, neste momento, parece simplesmente uma idéia absurda. Primakov, que não pertence ao PC russo, precisará do apoio dos comunistas para ser indicado, mas isto também não é preocupante. Na verdade, a idéia democrática prevê a possibilidade de alternância dos partidos no poder e como lá o Partido Comunista é legal (o que, atualmente, acontece em quase todo o mundo), é lógico que o objetivo da agremiação seja voltar a dirigir o país. Apenas, terá agora de se adequar a uma outra realidade.
O problema que se descortina, porém, é a percepção de que Primakov ou qualquer outro que venha a assumir o comando político da Rússia não terá condições de resolver, como num passe de mágica, a grande crise que aquele país atravessa. E ainda que o próprio Partido Comunista tomasse efetivamente o poder, devido à maioria com que conta no Parlamento, também não haveria como acreditar que pudesse solucionar as dificuldades do país em pouco tempo. O que ajudaria, sem dúvida, seria um apoio firme do exterior, das chamadas grandes potências. Mas estas não se mostram tão animadas em dar a ajuda necessária, já que igualmente estão enfrentando os reflexos da crise que, iniciada na Ásia e agravada pela situação russa, parece haver atingido de modo forte praticamente todo o mundo, como o Brasil bem pôde constatar ontem, no vendaval que atingiu as Bolsas.
Ao que se percebe, a possível solução do problema político russo não foi suficiente para reduzir o clima de tensão. Ao contrário, a instabilidade percebida nos principais centros econômicos mundiais é preocupante. A possibilidade de que a resolução do problema político russo possa ter ocorrido muito tarde para evitar o efeito dominó sobre as cambaleantes economias de muitos países é algo a ser considerado. E a necessidade de se encontrar, em nível mundial, rápidas soluções para evitar que ocorra uma debacle é ainda mais premente. A fraqueza dos principais líderes mundiais é outro fator negativo: nos Estados Unidos, Bill Clinton enfrenta o inferno de suas relações com Monica Lewinsky; na própria Rússia, Bóris Yeltsin tenta se manter no cargo, sob ameaça constante; na Alemanha, Helmuth Kohl corre o risco de perder as eleições e o poder; no Japão, o novo governo ainda não conseguiu se firmar.
Sem lideranças firmes, sem pontos de apoio efetivos e em meio a uma confusão em que apenas, aparentemente, os especuladores conseguem se equilibrar, as previsões globais não são muito alentadoras. Talvez a única esperança venha precisamente disto: diante da ameaça geral, é hora de uma ação mundial para vencer uma crise que coloca em risco não só as economias emergentes, mas toda a sociedade humana civilizada.

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