Editorial - Sinais positivos
A balança comercial brasileira registrou um superávit de US$ 219 milhões em fevereiro, conforme informou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. As exportações somaram US$ 3,267 bilhões, contra US$ 3,048 bilhões em importações. Este foi o primeiro resultado positivo da balança comercial desde junho de 1998, quando o excedente foi de US$ 41 milhões. Esta situação representa, sem dúvida, um efeito da desvalorização do real, o que evidencia que esta nova situação cambial criada com a flutuação da moeda tem também alguns lados que podem ser considerados positivos. Desde que o real foi liberado, o grande destaque tem sido a queda no valor da moeda brasileira, o que é natural. Depois de 4 anos com uma moeda aparentemente forte, houve um verdadeiro vendaval sobre a moeda nacional, provocando grande choque para uma coletividade que vinha sendo informada que, agora, o Brasil havia entrado em outro patamar financeiro. Paralelamente, começaram a surgir as informações negativas, ao lado da especulação, que infelizmente acompanha qualquer alteração no quadro econômico de um país.
É inegável que muitos brasileiros tiveram pesados prejuízos com a desvalorização do real. A alta do dólar representou aumento nos preços dos produtos importados, com todas as consequências disto decorrentes, inclusive, como se viu em fevereiro, a redução no valor das importações brasileiras. Caiu o movimento em muitas empresas e, como resultado, também o setor registrou alta no desemprego. Há um grande número de pessoas que enfrenta dificuldades devido a contratos com correção pela variação do dólar, o que foi um bom negócio por muito tempo, mas, com a desvalorização do real, se transformou em uma tragédia. Ademais, a continuada queda do real em face do dólar produz até efeitos psicológicos adversos. Há um choque entre a situação existente até o começo de janeiro deste ano e o que se vive hoje. A até então moeda forte parece ter apodrecido. E as notícias diárias indicando novas quedas só servem para agravar o panorama.
Há, porém, setores que estão se beneficiando desta nova situação da moeda. A melhora nas exportações, embora ainda pequena, indica isto. Com a desvalorização do real, os produtos brasileiros ganharam competitividade no mercado externo. Isto produz efeitos positivos sobre os setores produtivos ligados à exportação, desde o campo (com melhores perspectivas para a soja, por exemplo), até mesmo a indústria automobilística, que pode encontrar no mercado externo um substituto à queda de vendas que vem ocorrendo internamente, algo que acontece bem antes da alta do dólar. Um dos efeitos disto se observa, inclusive, na melhor oferta de empregos nos setores que terão melhores perspectivas no comércio externo. Também o turismo contabiliza lucros com aumento na ocupação de hotéis e todos os demais efeitos positivos disto decorrentes.
Naturalmente, as dificuldades persistem. O próprio segmento exportador reclama a falta de financiamentos para entrar com mais firmeza no mercado. É necessário também que haja um apoio mais consistente à produção, inclusive no campo, não apenas para garantir excedentes destinados à exportação, mas também visando atender à demanda interna de alimentos. O campo tem capacidade mais rápida para gerar empregos. E o investimento na agricultura traz dividendos em pouco tempo. Com medidas de apoio, redução nos juros e adoção de estímulos efetivos aos investimentos produtivos, o Brasil tem condições de transformar a crise da desvalorização do real em ponto de partida para uma situação melhor de todo o seu povo.





