Chega a provocar temor o clima de catastrofismo que se observa, delineado por alguns meios, sobre a situação do Brasil. As Bolsas, aqui e pelo resto do planeta, parecem em queda livre. Especialistas estrangeiros e nacionais se lançam a exercícios de futurologia do tipo mais tenebroso. O ex-ministro e ex-candidato à presidência Ciro Gomes chega a dizer que o Brasil parece cego em tiroteio, sem qualquer possibilidade de se safar desta enrascada econômica em que mergulhou. A substituição do presidente do Banco Central e a desvalorização do real são apontadas por alguns como fatos tremendamente negativos, inclusive porque, como assinalou um expert ligado ao FMI, contrariam os compromissos que o país assumiu para conseguir recursos de apoio à sua política econômica.
No meio deste quadro apocalíptico, é alentadora a reação do titular do grupo italiano Pirelli, Marco Tronchetti Provera, para quem os mercados internacionais reagiram de forma exagerada às dificuldades que o Brasil está atravessando. ‘‘Parece que houve uma hiper-reação dos mercados’’, comentou Tronchetti Provera, ao sair de uma reunião da Federação Confindústria, em Roma. ‘‘A desvalorização era uma etapa esperada. Espero que as reformas sejam realizadas rapidamente, e que a classe política se dê conta dos riscos que corre’’, acrescentou o número um da Pirelli, cujo grupo tem grandes interesses no Brasil. O presidente da Pirelli manifestou seu otimismo ante o futuro deste país, e assinalou que o ‘‘Brasil é um país que tem uma forte estrutura industrial. Os mercados andaram hiper-reagindo e isso provocou grandes riscos’’, acrescentou Tronchetti Provera, ponderando que ‘‘no mercado global é preciso haver organismos capazes de enfrentar caso a caso os problemas particulares, evitando intervenções muito vigorosas ou superficiais’’.
Por outro lado, informações de Porto Alegre indicam que a desvalorização do real frente ao dólar provocada pelo alargamento da banda cambial vai facilitar os planos do grupo Randon, de Caxias do Sul, de aumentar em até 20% suas exportações em 1999. No ano passado, o conglomerado, que atua com maior força nos segmentos de implementos rodoviários, autopeças e caminhões fora-de-estrada, vendeu cerca de US$ 75 milhões no exterior, o equivalente a quase 17% dos US$ 450 milhões estimados como receita líquida.
Segundo o diretor corporativo Astor Schmitt, o resultado da desvalorização do real será positivo para o grupo, pois ele mantém um saldo positivo na relação entre exportações e importações. Além disso, apesar de ter contratado, em dezembro, um empréstimo de US$ 60 milhões junto à IFC (International Finance Corporation), a Randon acredita que a elevação dos custos será diluída ao longo do período de pagamento, de dez anos. Os recursos serão utilizados para financiar investimentos nas controladas Randon Implementos Rodoviários e Fras-Le. Schmitt entende que a flexibilização do câmbio foi uma ‘‘medida saudável’’, mas afirma que ele não é suficiente para criar um clima de otimismo ‘‘da noite para o dia’’. Embora a situação tenha ‘‘parado de piorar’’, no médio prazo o cenário continua ‘‘preocupante’’, avalia o diretor.
Naturalmente, são apenas duas opiniões positivas em meio a uma avalanche de dúvidas e sustos. Todavia, parece oportuno neste momento que se tente separar o joio do trigo, que se perceba o que há de interesse especulativo em ampliar os contornos da crise. A situação é, sem dúvida, difícil. Mas não é, como alguns parecem querer fazer crer, tão desesperadora. E o Brasil tem todos os modos de superá-la, com serenidade, trabalho e discernimento.

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