Se é aos cidadãos que deve servir, o Poder Legislativo não precisa temer as manifestações públicas nem cercar-se de ostensivo aparato de segurança policial, à guisa de proteger-se do povo, no momento em que tem que tomar uma posição e votar. Duas sessões da Assembléia Legislativa do Paraná, que deveriam decidir pela venda ou não da Copel, foram adiadas sob a alegação de insegurança, no ambiente da Casa, face à presença, o ruído e a mobilização da massa popular.
Certamente os deputados não esperam que, na próxima sessão - marcada para a manhã de segunda-feira - tudo esteja pacífico no interior e nos arredores do edifício da Assembléia. A mesma multidão das sessões anteriores estará presente, com toda certeza, e tão atuante quanto antes. E, se a votação for sendo adiada, mais aumentará a efervescência e mais gente comparecerá. A presença de contingentes policiais armados mais agravará a situação, porque se há repressão os ânimos mais se acendem. Os estrategistas da segurança pública sabem disso.
O temor, portanto, não deve ser pelo que podem fazer os manifestantes, por unanimidade contrários à privatização da empresa e representando, nessa posição, o consenso da sociedade; deve ser, sim, pelo que os deputados irão decidir. Pela tendência já manifestada - das 400 entidades representativas de diferentes segmentos profissionais, políticos, sindicais e sociais no geral, e de 77% da população paranaense, já ouvida - nada de anormal ocorrerá se a maioria dos parlamentares votar pelo não à privatização. Haverá, sim, grande manifestação de aplauso. Já em caso de votação contrária, as consequências serão imprevisíveis. O povo é ordeiro e não precisa ser temido, bastando não contrariá-lo.
Os manifestantes se estribam em consenso que se irradia dos quatro cantos do Paraná, numa autêntica cruzada cívica que só encontra resistentes no Palácio Iguaçu e em pouco menos de três dezenas de parlamentares governistas. O bom senso recomenda - embora possa soar utópico sugerir isso - que o governo repense a sua decisão de vender a companhia de eletricidade, um patrimônio que não lhe pertence, mas é da população. Faça-se um plebiscito e se confirmará que os paranaenses não querem desfazer-se desse patrimônio.
Há uma guerra declarada, dentro e fora da Assembléia, e será ingenuidade supor que os ânimos se acalmem e o processo de votação transcorra pacífico. Porque um impasse está criado. A votação terá de ocorrer ou ser adiada indefinidamente, porque já se viu que os manifestantes não arredarão pé. Ao contrário, a tendência é que mais gente se desloque para Curitiba e engrosse a reação popular.
Este é um momento em que se exige coragem cívica dos parlamentares, e acima de tudo lealdade com o povo. Não é só pelo troco das urnas que eles deverão ver bem o que irão fazer, na sessão de segunda-feira, mas pelo que um ato irresponsável - e o é quando afronta a vontade dos cidadãos - irá representar em prejuízo para o Paraná. Portanto, que não se transforme, a Assembléia Legislativa, em reduto de inimigos do povo.

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