Editorial - Salários e inflação
Salários e inflação
A preocupação do governo conforme indicou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo diante do anúncio de acordos salariais com reposição de inflação por parte de várias categorias, além de ter o ranço de antigas posturas oficiais, dá a impressão do retorno de uma política abusiva contra o assalariado, que pode ser posto novamente como vítima na luta antiinflacionária. O que se está vendo, com a assinatura de acordos entre empresas e trabalhadores, é apenas consequência da situação criada pelo governo que, ao que se percebe, deixou de levar a sério a propalada política de estabilização da moeda. Com efeito, o fato de uma certa taxa inflacionária já estar prevista nos acordos com o FMI indica que a idéia básica do projeto lançado com o Plano Real foi descartada. E embora não haja atualmente diretrizes como as que vigoravam ao tempo da inflação exacerbada que realimentavam as altas de preços através da indexação, é certo que a adoção de uma política que prevê taxas inflacionárias cria condições propícias para a volta do quadro anterior.
Existe, sem dúvida, uma situação diferente na vida econômica brasileira, conforme reconhece o próprio Edward Amadeo. Todavia, não há como deixar de perceber que a mudança de diretrizes do governo em sua política econômica acaba por atingir vários setores, especialmente o do trabalho. Na verdade, a atual recessão e a falta de empregos já resultaram das decisões adotadas pelo governo. São medidas que implicam sacrifícios e que provocam situações difíceis, notadamente para os mais carentes. Entretanto, enquanto havia uma linha bem clara e definida de restauração da estabilidade da moeda, a população não apenas aceitava as dificuldades, mas lutava contra abusos e especulação, tão comuns no período anterior ao Real.
Até mesmo quando o governo pressionava os preços, através reajustes elevados nas tarifas públicas e de certos produtos, como os combustíveis, a população aceitava a situação e se adaptava a ela, com acendrado espírito de cidadania. O resultado disto se viu nos últimos anos, com a moeda quase estável, com níveis de inflação em queda, com ponderável parcela dos preços realmente contida. O que se está vendo nos últimos tempos porém é outra coisa: além das altas dos combustíveis e das tarifas públicas, que pesam muito sobre os orçamentos de todas as classes sociais, o próprio governo aceitou uma política de inflação. O resultado é o agravamento na situação do assalariado, uma queda no seu poder aquisitivo e, naturalmente, um aumento na pressão por reajustes salariais com greves e protestos.
A aceitação por alguns setores empresariais de acordos que prevêem correção salarial nos índices da inflação é justa. Que isto, de certo modo, pode precipitar mais inflação, é algo sabido. Entretanto, não há como esperar que os trabalhadores sejam mais uma vez sacrificados. O secretário de Política Econômica assinala que a esperança oficial é a de que não ocorra a reindexação. Ainda que a política adotada ultimamente pelo governo contradiga esta postura.
Chega a ser apavorante a perspectiva do retorno à situação vivida há menos de uma década, com todos os preços subindo, naquela escalada infernal que provocou tantos problemas ao Brasil e aos brasileiros. É possível reverter as coisas, ainda. Todavia, isto só pode ser feito a partir de atitudes diferentes das autoridades econômicas, em relação aos preços e à própria inflação. Não se pode esquecer que reajustes salariais são apenas consequências.





