Editorial - Sacrifícios e reeleição
Temos de pensar no Brasil, não na reeleição, comenta o presidente Fernando Henrique Cardoso com alguns de seus ministros mais chegados, para justificar a eventual necessidade da adoção de medidas consideradas impopulares para defender o real desta crise mundial que ameaça os chamados mercados emergentes. É a postura que se espera de um governante. Mas, diante de tal frase, tem-se a impressão de que o presidente teme que pensar no Brasil possa prejudicar seu projeto de reeleição. Isto significa forte dúvida em relação à capacidade de percepção do povo. Dá a impressão de que os brasileiros não vão entender possíveis dificuldades que possam surgir diante de atitudes mais duras que podem ser tomadas para proteger a estabilidade.
É um equívoco. Os brasileiros de modo geral, como aliás revelam todas as pesquisas, estão satisfeitos com a estabilidade, lutam por ela e não querem a volta da inflação exacerbada, do caos econômico, da confusão que fez parte do cotidiano nacional. A população, com uma consciência cada vez maior de sua capacidade e dos seus verdadeiros desejos, tem sido a grande responsável pela manutenção dos níveis de inflação baixa nos últimos tempos. Quanto a ser obrigada a enfrentar novos sacrifícios, também é algo que não chega a provocar grandes temores: nas últimas décadas, isto é o que mais se tem pedido ao povo. Com uma diferença: no passado, os esforços eram feitos e não se via resultado algum. A partir do lançamento do atual plano de estabilização, as coisas mudaram. A inflação está sendo contida e chegou a níveis inacreditavelmente baixos nos últimos meses.
O Governo precisa, mesmo, pensar no Brasil e não na reeleição. E não deve haver dúvidas: só pensando no País, só trabalhando com seriedade, firmeza, coragem e honestidade é que se capacitará para obter o voto na eleição que vai acontecer em 11 meses. O eleitor brasileiro tem evoluído muito. A consagradora vitória de Fernando Henrique Cardoso, no último pleito, é bem demonstrativa. Quando as eleições aconteceram, o Plano Real ainda estava em fase inicial. Mas já era possível sentir seus efeitos. Mais que isto, a maioria do eleitorado acreditou que não se tratava de manobra eleitoreira. Assim, elegeu FHC, sem sequer a necessidade do segundo turno.
O que aconteceu desde então comprovou o acerto na escolha do eleitorado. Isto porém não quer dizer que o Brasil tenha saído das dificuldades, que as coisas agora estejam maravilhosas ou fantásticas. Ainda faltam empregos, os juros que já estavam altos agora vão subir mais, o déficit público persiste, são grandes as dificuldades também na saúde e educação. Mas o que se obteve como resultado positivo, a população o percebe. Sabe também que o caminho escolhido está certo e que haverá novos obstáculos pela frente. Assim, as possíveis medidas impopulares que o Governo vier a adotar esta semana não terão que, necessariamente, prejudicar as possibilidades de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O fundamental é perceber que os brasileiros não querem a volta da inflação. Se as decisões impopulares visarem a defesa do real e da estabilidade, isto não resultará em perda para o projeto governista de reeleição. O que se reclama, agora, é que haja medidas sérias, que os governantes assumam de fato seu papel e sua responsabilidade, ao lado do povo, sem mentiras ou engodos. Afinal, o que realmente pode prejudicar a imagem do Governo é a falta de coerência ou os desvios do caminho que precisa ser trilhado.





