O pacote econômico anunciado segunda-feira pelo governo federal representa um risco para o projeto político do presidente Fernando Henrique Cardoso. Faltando 11 meses para o pleito e tendo o presidente, até há pouco, expressiva preferência, a edição de medidas impopulares, capazes de provocar altas nos preços, demissões na esfera federal - e também na iniciativa privada, em função da retração dos negócios -, surge como obstáculo ao propósito do presidente de conquistar outro mandato. FHC já havia dito que não podia tergiversar diante da situação e que se fosse preciso adotar medidas duras, ainda que prejudicando seus planos, ele o faria, com o argumento de que seu compromisso maior é com o Brasil.
Em verdade, o risco é também calculado. Há muito se podia antecipar que toda a situação, mesmo sem a crise das bolsas do Sudeste da Ásia, acabaria levando à necessidade da adoção de medidas duras para garantir o processo de estabilidade. É preciso ter em mente que o projeto todo tinha como base a necessidade de profundas reformas estruturais, o que inclui mudanças na Constituição, privatização, alterações sérias em boa parte da legislação vigente. Tudo isto era necessário para, entre outras coisas, acabar com o déficit público - uma das bases de todo o descalabro da economia brasileira. E a inércia para as mudanças, a falta de vontade política e de uma ação mais concreta já sinalizavam para o surgimento de problemas, que reclamariam medidas fortes. A crise nas bolsas, com a fuga de capitais, apenas precipitou as coisas.
Diante do agravamento da situação, não havia muitas alternativas para o governo federal. Tentar ‘empurrar com a barriga’, prática muito comum em outras épocas, poderia levar as dificuldades a um patamar insuportável. E se tudo eclodisse nos primeiros meses de 98, então, realmente a situação poderia se tornar insustentável. Antecipando-se, adotando agora medidas impopulares, o presidente Fernando Henrique Cardoso assume um risco necessário, e com tempo para recuperação. Assim, o que ele espera é que as providências adotadas produzam os resultados esperados, restaurando as condições para manter a estabilidade. Isto acontecendo, será possível ao Executivo federal, ao final do primeiro trimestre de 98, encetar uma política de aquecimento, capaz de reverter o quadro, devolvendo-lhe, talvez até com ganhos, o prestígio que teve até há pouco.
Ademais, o governo joga com um fator psicológico muito interessante: para a oposição política, o melhor seria que as medidas não dessem certo, que a situação piorasse a ponto de prejudicar de modo irremediável o projeto político do presidente. Todavia, anunciar um propósito nesse sentido não é, evidentemente, algo aceitável, pois neste momento é vital para os brasileiros que o pacote produza bons resultados. Assim, a própria oposição precisa ter cautela em seus posicionamentos. As críticas já feitas ao Congresso, em relação à demora nas reformas, fazem parte de um concerto destinado a colocar os opositores de FHC na defensiva. Neste momento, eles estão também em baixa.
Os próximos meses é que vão definir o que, há algum tempo, parecia decidido. A reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, hoje, não é tão certa quanto se pensava há alguns meses. A aposta do chefe do governo se fez no pacote e no tempo. Se os cálculos forem certos, então FHC poderá garantir mais quatro anos no Planalto. Mas se houver falhas, então tudo poderá acontecer.

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