A revolta manifestada pelo ministro José Serra, da Saúde, a respeito dos falsificadores de remédios, representa a reação mais natural que se possa ter diante deste crime. O ministro chegou a dizer que se houvesse pena de morte no Brasil não titubearia em pedir esta punição para os responsáveis por tal tipo de crime. Insistiu ainda que, no mínimo, esta prática deveria figurar entre os chamados crimes hediondos, com todas as penas e todo o rigor possível da lei. A veemência do ministro chegou a espantar, até por ser ele uma pessoa que raramente se mostra irritado ou, como no caso, irado. E houve quem a considerasse algo excessiva, não faltando os que pretenderam dar ao episódio conotação eleitoreira. O que, em sã consciência, é inconcebível. O que o ministro sentiu é a mesma reação que devem ter todos quantos tomam conhecimento desse tipo de atitude. Falsificar remédios é um crime terrível, inclusive porque tem como alvo inocentes já fragilizados pela doença, pessoas que procuram a cura ou um alívio e que acabam atingidas mortalmente por pessoas inescrupulosas, que de fato não merecem qualquer desculpa.
A informação de que o Hospital Universitário de Londrina e o Hospital das Clínicas de Curitiba foram vítimas desta fraude, e que estavam usando um medicamento falsificado destinado ao combate ao câncer, coloca o problema sob a ótica mais próxima. E lhe confere a dimensão que mereceu toda a ira do ministro da Saúde. Não se trata apenas de uma notícia de jornal ou de TV, de um fato acontecido em outro lugar, mas de um crime cometido no Paraná, em Londrina, em Curitiba, contra doentes que sofrem um dos mais dolorosos e assustadores males, o câncer, e que não só estavam sendo enganados, mas que se distanciavam da cura por causa desta infâmia. Os doentes, seus parentes e toda a coletividade que se sente, neste momento, apavorada porque pode estar sendo vítima da fraude em outros medicamentos, podem perceber a dimensão da tragédia e a necessidade de investigação, prisão e punição dos criminosos. A população precisa ter total garantia de que os remédios que usa são legítimos.
O crime está entre nós. E pelo que se pode perceber, não é o único. O ministro José Serra está sofrendo ameaças à sua vida e não apenas devido à sua corajosa postura contra os falsificadores de remédios. Na realidade, este crime parece ser apenas a ponta do iceberg dos absurdos que ocorrem neste país em relação à saúde da população. Serra, que vem demitindo funcionários relapsos, exigindo trabalho dos hospitais, procurando de fato corrigir as imensas e graves falhas da saúde, e defendendo a punição para quem falsifica remédios, está incomodando. De fato, não é de crer que a indústria da falsificação de medicamentos só começou a operar agora. Esta criminosa e hedionda prática deve estar ocorrendo há anos. Apenas ninguém teve a coragem de denunciá-la e a disposição de enfrentar esta situação.
O quadro da saúde pública no Brasil é dos mais graves. Isto, importa observar, não é uma coisa recente, não é, como se costuma dizer atualmente sobre todos os dramas, efeito da ‘globalização’. É, sim, resultado da miséria de uma imensa parcela do povo ao lado da falta de sensibilidade e vontade política para enfrentar quadro tão sério. Quando se criou a CPMF, dizia-se, os recursos iriam de fato para a saúde. Não é o que ocorre, há desvios imensos, confirmando a sequência de enormes mazelas em todo o setor. E é vital que se enfrente este desafio, em todas as frentes, demitindo funcionários que não trabalham direito, direcionando os recursos e acabando com a indústria dos falsificadores de remédios.

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