Editorial - Resgate da dignidade
Depois da tragédia acontecida é fácil buscar o recurso em chavões para explicar tudo, assim como também é tentador lançar culpas para uns ou outros (conforme a postura de quem observa). As mortes ocorridas em dois confrontos, no Estado, entre sem-terra e seguranças, finais previsíveis diante do desencadear da violência, são deste tipo. Imediatamente são repetidas as afirmativas segundo as quais violência gera violência e não faltam os que responsabilizam as próprias vítimas, considerando que a invasão ou até a formação de um acampamento, com tudo o que isto envolve, é a ação que acaba provocando a reação (o confronto armado). Do mesmo modo, recordam-se postulados legais que, aparentemente, dão força aos proprietários quando recorrem à força para conter ou evitar as invasões, na defesa de seu patrimônio. E, do outro lado, são também comuns as queixas e críticas, com a responsabilização das autoridades governamentais, a quem incumbiria prevenir este tipo de ocorrência. Pior é que depois de enterrados os mortos, tudo parece esquecido (salvo a dor dos parentes das vítimas de ambos os lados) e a situação continua no mesmo ritmo, antecipando novas tragédias, que com maior ou menor intensidade voltarão a acontecer.
A observação mais simples indica que a invasão é, em si, um ato de violência, uma ação definitivamente ilegal, que produz consequências como as mortes agora registradas. Todavia, indo um pouco mais além, é possível perceber que a tragédia dos sem-terra constitui um fato real que se fundamenta numa história longa e terrível de privações. O ser humano, basicamente, tem anseios simples e busca, de modo geral, condições para uma vida decente. Quer condições para o trabalho e possibilidades para garantir aquele mínimo indispensável a uma vida comum. O surgimento dos sem-terra e também dos bóias-fria, assim como de toda uma imensa multidão de desamparados que forma bolsões de miséria na periferia da maioria das grandes, médias e mesmo pequenas cidades do país, constitui o corolário de uma situação de injustiças, abusos, sofrimento e insensibilidade. Este quadro (por vezes manipulado por lideranças com interesses escusos) é a base de toda esta crise social e acaba explodindo em violência, que pode ser a invasão de terras ou a reação dos proprietários na defesa de seus direitos.
Torna-se imperativa uma revisão urgente nos conceitos que têm servido até como base para justificar tanto a violência das invasões quanto a da reação armada, buscando-se a raiz de toda esta insegurança que ameaça não apenas as vidas dos diretamente envolvidos, mas a própria definição de sociedade civilizada em que vivemos. Nesta hora de transformações intensas no setor econômico, com naturais e profundos reflexos na situação social, é vital que haja uma refomulação profunda na análise das situações e uma busca honesta de soluções. Importa, principalmente, abandonar a postura fria da análise brusca de números, que produzem explicações aparentemente racionais, mas que escondem o profundo desejo de alguns em defender privilégios e de outros de manter realidades inconcebíveis. As injustiças sociais, que produzem não apenas os sem-terra mas todos os tipos de desassistidos, precisam ser avaliadas e toda a situação tem que ser modificada, criando-se um enfoque que leve em conta, fundamentalmente, as necessidades mínimas de cada pessoa neste país rico em potencial, mas terrivelmente sofrido.
As invasões, como todas as outras situações tenebrosas e duras da sociedade brasileira, têm como base a falta de uma política de apoio social, de uma política agrária efetiva, de resgate da cidadania de uma imensa maioria que continua marginalizada. Não podemos só enterrar os mortos, mas lutar para mudar esta realidade e garantir a todos os brasileiros o mínimo de dignidade que a pessoa humana merece.





