Editorial - Reservas e déficit
Os engenheiros do plano de estabilização brasileiro usaram as reservas cambiais como lastro para a moeda que surgia, o Real, numa medida inteligente mas complexa, que provocou muita polêmica. Na época, ponderava-se que essa base era perigosa e deixava o País sujeito às oscilações de mercados sem nenhum controle interno - a praça financeira internacional. Além disso, outras variáveis deveriam ser acompanhadas com muito cuidado e também escapariam ao controle em situações agudas, se ocorressem grandes deslocamentos de capital de um lugar para outro. Os riscos eram grandes, mas valeriam a pena se a inflação despencasse.
E os riscos mostraram a cara logo no começo de 1995, um ano depois da URV e nove meses depois do Real. O México quebrou e o Brasil foi obrigado a frear violentamente a economia para também não quebrar. No ano passado foi pior: vários países da Ásia quebraram em cascata e as reservas brasileiras despencaram de R$ 61 bilhões para R$ 52 bilhões. E para não quebrar dessa vez, foi preciso dobrar a taxa de juros, de 20% para 42% ao ano, a fim de trazer de volta os capitais que tinham evaporado.
Nada disso teria ocorrido em níveis tão drásticos se o País fosse colocado, ainda em 1995, numa situação de independência em relação aos capitais inteligentes - aqueles que só aparecem para engordar com os juros ou as altas nas bolsas e se retiram rapidamente ao menor sinal de instabilidade. Bastava implantar as principais reformas estruturais e reduzir substancialmente o déficit corrente. O Governo fracassou nas duas ações.
Agora, uma boa notícia chega ao mercado: as reservas do País já estão em US$ 58 bilhões e em março devem alcançar o nível de US$ 61 bilhões, informa o Governo. Só falta a aprovação das emendas da reforma da Previdência e da reforma administrativa, no mês que vem, para reverter positivamente as expectativas e os juros caírem.
Mas, não vão cair o bastante. A notícia ruim fica por conta do déficit interno. O descontrole das contas públicas - União, estados e municípios - impede que os juros que estamos pagando para recuperar as reservas caiam a níveis civilizados. E como se fosse pouco, ainda tem o déficit externo, resultado da maior saída de dinheiro via importações, juros da dívida externa, viagens de turismo e remessas ao exterior, por um lado, e da menor entrada de divisas via exportações e ingresso de capitais, pelo outro.
Os números ainda não são conhecidos, mas suspeita-se que o déficit interno superou em muito as metas estabelecidas pelo Governo neste começo de ano, em grande parte por causa da própria política de juros altos, que pegam em cheio a dívida pública a vencer. Aumentar os juros é brincar com fogo e o Governo está pagando caro a brincadeira, que só não tem graça nenhuma porque a conta vai para os contribuintes, isto é, a população e as empresas.
A recomposição das reservas certamente dará ao País um pequeno fôlego para tocar seu projeto econômico. Espera-se que esse alívio, ainda que relativo, não seja motivo para o Congresso fazer corpo mole em março e não aprovar as emendas das duas reformas que ficaram três anos paradas e só andaram por causa do pacote de novembro passado.
Que elas se concretizem e que o Executivo assuma seriamente sua responsabilidade para reduzir o déficit e garantir assim, efetivamente, a estabilidade na economia.





