Editorial - Remédios mais caros
Remédios mais caros
Apenas dois setores industriais registraram, nos últimos 10 anos, reajustes de preços acima da inflação, conforme dados divulgados em estudo inédito do Departamento Econômico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, analisando o impacto da abertura comercial na indústria nacional desde 1989. São eles, o de bebidas (cervejas e refrigerantes) e o de medicamentos. O primeiro registra, nos 10 anos que foram estudados, um acréscimo de 33,3% acima da inflação do período. O outro, atinge um total ainda mais elevado, chegando a 48,8%. Estes números são ainda mais sérios diante da queda da inflação, observada a partir da implantação do Plano Real, há 5 anos, e em face também da redução de preços verificada no período na indústria nacional como um todo, que chegou a 40%.
A queda observada nos preços da indústria nacional decorre não apenas do plano de estabilização da economia, mas também da abertura comercial, permitindo a entrada no País de um elevado número de produtos estrangeiros a preços reduzidos, numa concorrência que acabou influindo nos valores cobrados pelos produtores. Como efeito colateral, vale recordar, muitas indústrias brasileiras sofreram terríveis dificuldades, com efetiva redução nos lucros, além de outros efeitos negativos para o mercado interno. Entretanto, era uma consequência esperada diante da verdadeira revolução que se produziu na economia nacional, com a derrubada de medidas de proteção tributária. A indústria brasileira, de modo geral, pagou o preço da chamada globalização e ainda não se recuperou plenamente. Exceto, como revela o estudo, a das bebidas e dos medicamentos.
As indústrias de bebidas contestam o resultado do estudo, insistindo até em uma certa redução nos preços ao consumidor. Mas a de medicamentos considera que o levantamento pode estar certo. E lança a explicação: os reajustes ocorridos nos últimos anos acabaram representando uma atualização de preços que, conforme o setor, vinham sendo achatados pelo tabelamento oficial que durou cerca de 40 anos. Quer dizer, o brasileiro vem pagando, nestes últimos 10 anos, conforme os responsáveis pelo setor, não apenas as altas normais, mas também pelos pecados do passado paternalista.
O mais sério é que se em relação às bebidas ainda existe uma certa possibilidade de o consumidor pressionar a indústria, usando os instrumentos normais do mercado, entre os quais a troca de marca ou até a rejeição plena, o mesmo não ocorre no outro setor em questão. É que em relação aos medicamentos, a situação do povo é mais grave, até porque o setor oficial, que poderia oferecer alternativas aos que mais necessitam, está falhando e muito, deixando faltar produtos vitais para um elevado número de doentes. Assim, quem precisa de remédios tem menores possibilidades de fugir às dificuldades criadas por um setor que aumentou excessivamente os preços que cobra, sem mostrar qualquer pudor ou preocupação. Ao contrário, os representantes da indústria no país fazem afirmativas segundo as quais o medicamento em dólar, no Brasil, ainda é mais barato do que em muitos países. Há aí uma evidente falta de sensibilidade porque o brasileiro não ganha em dólar e o salário aqui é, sem dúvida, bem inferior ao da maioria dos demais países. Pior é que os mais carentes são os que mais necessitam de remédios.
Nesta fase da economia, será quase impossível sugerir que de novo haja o tabelamento no setor. Mas é fora de dúvida que, diante do drama social que se cria com esta situação, as autoridades precisam investir mais para oferecer à população carente remédios que substituam os caríssimos medicamentos que são ofertados aos brasileiros hoje.





