Editorial - Rejeição à miséria
O Dia da rejeição da miséria foi celebrado sábado em mais de 50 países do mundo, graças à iniciativa da organização não-governamental de Ajuda à Miséria do Quarto Mundo (ATD Quarto Mundo), organismo que criou este dia na França em 1987 e que a ONU consagrou como dia mundial em dezembro de 1992. O dia foi comemorado ao mesmo tempo em que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) informou que a Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) dos países ricos para os pobres caiu tremendamente e que quase dois terços dos 6 bilhões de habitantes do planeta vivem com menos de dois dólares ao dia.
Falando sobre a data, em Paris, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, conclamou à realização de uma rebelião contra a pobreza, que definiu como uma constante escandalosa em um mundo cheio de mutações. A pobreza choca e é necessário uma revolta contra ela, afirmou em uma mensagem à associação promotora da celebração.
Penso, certamente, em uma revolta positiva, que se traduza, ao nível das coletividades, em uma vontade política claramente definida e confirmada pela destinação de recursos suficientes, argumentou Annan. Defendeu, igualmente, uma reativação diária dos valores de compaixão, distribuição e solidariedade. Não basta nos limitarmos a lamentar, uma vez por ano, o sensível agravamento das desigualdades, a ampliação progressiva da fratura social, a diluição gradual das noções de solidariedade e assistência e dos efeitos perniciosos da propagação da violência, da fome e da ignorância, acrescentou.
Por outro lado, Mary Robinson, alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, pediu uma aliança mundial que tenha a pobreza como questão central dos direitos fundamentais.
As palavras do secretário-geral da ONU são enfáticas e comoventes. Entretanto, ele próprio, um homem originário da África, sabe que nem mesmo a indignação mais sincera diante do quadro da fome que atinge um a cada três seres humanos é suficiente para abrir, pelo menos, perspectivas de solução desta tragédia. Quando se constata, conforme a revelação do Programa da ONU para o Desenvolvimento, que o volume de ajuda dos países ricos aos pobres caiu drasticamente, é fácil perceber que não se vislumbram iniciativas concretas capazes de reverter esse cenário.
Vencer a miséria, entretanto, deveria ser o principal desafio da humanidade, neste momento da História. Não se pode esquecer como, neste final de século, o mundo sofreu transformações consideradas inacreditáveis há três ou quatro décadas. O esboroamento do bloco comunista, a aproximação da China com os outros países do mundo, a queda do Muro de Berlim, o fim da guerra fria, tais fatos por si não apenas mostram que o homem pode conviver no planeta mas, também, que até o impossível é realizável desde que haja vontade. O fim da guerra fria, entre outras coisas, abriu imensas possibilidades para o mundo que poderia desviar para a luta contra a pobreza os bilhões consumidos ao longo dos anos em armamentos destinados a manter o equilíbrio do terror.
Isto seria um bom ponto de partida. O outro, sem dúvida, haveria de ser a mudança que se reclama, hoje, na relação entre os povos do mundo. Este planeta de economia que se projeta global tem de caminhar, também, para uma derrubada de fronteiras e para uma abertura que coloque todos os seres humanos como iguais que são. Isto criaria uma nova mentalidade capaz de resolver a tragédia da miséria.





