O 15º Congresso do Partido Comunista Chinês, que define as linhas de ação nos próximos cinco anos para o País mais populoso do mundo, prepara-se para adotar medidas verdadeiramente revolucionárias. Embora garantam que não pretendem seguir os princípios da economia ocidental nem incorporar os princípios democráticos ao seu sistema, os novos dirigentes da China precisam imprimir mudanças mais profundas para resolver seus problemas, notadamente a grave crise do setor econômico estatal. E para isto já encaram a possibilidade de mudar radicalmente alguns de seus conceitos, inclusive aquele que é um dogma para os Partidos Comunistas: o que garante o automático bem-estar dos cidadãos, do berço ao túmulo, por conta do Estado.
Num discurso de duas horas e meia, o Chefe do Estado chinês e do partido, Jiang Zemin, afirmou perante auditório de 2.048 delegados que só um sistema acionário é capaz de resolver a crise das empresas públicas, cuja maioria - dois terços - é deficitária. Esta reestruturação, acrescentou, é de ‘‘importância vital para a estabilidade social e econômica’’. Com veemência, Jiang Zemin exortou os delegados a ‘‘sair dos caminhos trilhados’’ a fim de encontrar uma solução para a crise do setor público, decorrente de gastos colossais na área social.
Parte do capital das empresas públicas será colocada à venda, sob a forma de ações a serem oferecidas a particulares e às coletividades, segundo informações da imprensa chinesa. A maioria permanecerá sob controle das autoridades locais. Jiang negou que o sistema de acionistas seja uma privatização camuflada, como afirmam alguns setores da velha guarda do PCC. Mas o secretário geral não ocultou que esta reforma será acompanhada inevitavelmente de demissões e de dificuldades sociais para os 100 milhões de funcionários públicos.
Jiang advertiu que acabou-se o tempo em que o Estado se encarregava do bem-estar dos cidadãos durante toda a vida. ‘‘Todos os trabalhadores devem mudar sua forma de pensar, em matéria de emprego, e melhorar sua qualificação para atender às novas exigências da reforma e do desenvolvimento’’, disse.
Cerca de 30% dos 113 milhões de empregados da indústria são considerados improdutivos. Mas todo o programa de redução de pessoal poderia provocar o caos em um mercado de trabalho já incapaz de responder à demanda de dezenas de milhões de trabalhadores imigrantes e de mais de 70 milhões de jovens que a cada ano chegam à idade de entrar no mercado de trabalho. Este é o enorme desafio do País mais populoso do mundo, que conseguiu, através das fortes restrições políticas e de um paternalismo acendrado, atingir situação ímpar no mundo. Entretanto, nesta altura do século 20 até mesmo os dirigentes comunistas chineses percebem que precisam mudar para garantir não só o seu futuro individual, mas o de todo o país.
A transformação, em qualquer outra parte do mundo, exige grande dose de coragem e criatividade, especialmente quando governos insistem em manter - por comodismo e medo - sistemas demagógico-paternalistas. Até a milenar China percebe, apesar dos dogmas maoístas e pós-maoístas, que precisa reformar suas estruturas para não naufragar. É sem dúvida um tipo de lição que deveria ser aprendida por países como o Brasil, onde uma oposição maoísta-xiita, aliada a grupos reacionários de direita, insiste em obstruir as reformas de suas estruturas, aqui bem menos traumáticas.

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