Reforma ministerial
A tese da reeleição, vendida aos brasileiros durante o primeiro mandato do sr. Fernando Henrique Cardoso, enfatizava a idéia segundo a qual com a vigência de tal instituto, entre tantas outras vantagens, perder-se-ia menos tempo na complicada adaptação ao novo cargo. Chefes de Executivo reeleitos estariam em condições de pura e simplesmente continuar o que estavam fazendo - e o que, segundo a crença, garantiu a reeleição -, sem perder tempo com os problemas naturais que caem na cabeça de quem assume o cargo pela primeira vez. Contudo, o que vem acontecendo neste segundo mandato do sr. Fernando Henrique Cardoso contraria frontalmente tudo o que se afirmou. Reeleito com maioria absoluta, repetindo o feito do primeiro mandato, o presidente estaria em condições de dar sequência ao trabalho que o consagrou, sem maiores dificuldades. Isto significaria que o Brasil entraria no novo governo sem traumas e poderia continuar a usufruir de todos os bons resultados obtidos pelo governo no primeiro mandato.
O que aconteceu, porém, não foi bem isto. Começou com a grande mudança realizada em janeiro, quando o governo desvalorizou o real, medida que muitos consideravam necessária, mas que as autoridades diziam que não iriam adotar. O resultado disto foi toda a crise que se abateu sobre o país, com a agravante de o presidente, em poucos dias do novo mandato, ter perdido grande parte da credibilidade que conquistou nos primeiros quatro anos. A desvalorização do real era um risco calculado e, como se percebeu, necessária diante da realidade monetária mundial. E o governo poderia ter recuperado a confiança popular, até porque nos meses subsequentes a situação não se tornou tão catastrófica quanto se temia. A própria inflação, que ameaçava retornar, foi contida. E o governo teria tido condições para superar o impacto negativo daqueles primeiros dias de segundo mandato.
Não é o que está acontecendo, porém, e por um motivo principal: o presidente Fernando Henrique Cardoso não conseguiu ainda assumir o controle de seu novo período. Chega a ser incrível, afinal tratava-se de dar continuidade ao período anterior. Mas é verdadeiro. Os entrechoques entre ministros, as dificuldades com partidos que formam no bloco de apoio ao Executivo, os desencontros observados entre os Poderes, tudo isto está produzindo uma situação de instabilidade política que é a causa principal de, seis meses após a nova posse, o presidente ter de pedir o cargo a seus ministros para realizar uma reforma ministerial. É pouco tempo, desde o início do novo período governamental, para se ter a necessidade de uma mudança do Ministério. E esta situação por si deixa evidente que alguma coisa foi mal elaborada, pelo presidente, em seguida à reeleição.
É possível perceber que a grande falha ocorreu no trabalho de alinhamento dos partidos políticos que apóiam o Executivo. A campanha eleitoral do ano passado serviu para ampliar o fosso entre alguns dos membros dos partidos que formam a aliança governamental no Congresso. Várias vezes o presidente e candidato à reeleição teve de mostrar enorme habilidade para enfrentar as divergências entre os políticos das siglas que, em tese, deveriam estar unidas em torno do governo federal. O trabalho de entrelaçamento feito depois da reeleição e até a posse não foi suficiente para superar os traumas. E a precipitação de uma quase indisfarçada campanha sucessória, já tendo em vista a presidência em 2002, só serviu para complicar ainda mais as coisas. FHC tenta agora, com a reforma do Ministério, corrigir as falhas. Não é uma tarefa fácil, mas é vital para ele, que tem ainda três anos e meio de mandato, tempo demais para o país viver em sobressalto.

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