Editorial Reduzindo diferenças Deputados federais e senadores, finalmente, estão dando mostras de sensibilidade em face da decisão relativa ao teto salarial, ao mesmo tempo em que persistem as dificuldades para o estabelecimento de um novo mínimo para os trabalhadores. Primeira consequência disto foi a decisão adotada por partidos aliados e de oposição no Congresso, que resolveram não tratar da remuneração máxima dos servidores públicos, parlamentares e magistrados sem antes definir o valor do novo salário mínimo. O deputado Paulo Paim, inclusive, foi taxativo ao assinalar que o Congresso vai se desmoralizar se não cuidar primeiro da questão ligada aos trabalhadores. E o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen, garantiu que a prioridade na pauta de votações deve ser voltada para aqueles que mais precisam. No caso específico do teto, Bornhausen reconhece que, diante do tumulto que se criou, não há como colocar em votação a proposta relativa ao teto. Mais grave ainda, como enfatiza Paulo Paim, é estabelecer um teto que é 169 vezes maior que o salário mínimo. Como uma fórmula destinada a pacificar os espíritos, o relator da comissão especial do salário mínimo, deputado Eduardo Paes, sugere que o percentual máximo de correção do teto seja vinculado ao reajuste do mínimo. Neste momento, o proposto reajuste do teto, de R$ 8.000 para R$ 11.500, representa um aumento de 43,6%. Aplicado ao mínimo, o percentual resultaria em um salário de R$ 195,60, bem superior à faixa pretendida pelo governo, que não quer ultrapassar os R$ 150. A discussão simultânea do teto e do mínimo abriu espaço para o encaminhamento de proposta do senador Pedro Simon, já aprovada no Senado, que vincula a maior e a menor remuneração no setor público. Simon propõe que o valor do salário mais alto não ultrapasse o total de 20 salários mínimos, lembrando que nos países desenvolvidos essa diferença é de no máximo dez vezes. É, talvez, a idéia mais correta diante de todo o debate. Entretanto, nem mesmo o mais otimista dos brasileiros pode acreditar que este tipo de proposta tenha sucesso, até porque implicaria em uma redução substancial nos vencimentos dos potentados da República. Afinal, ainda que se aprovasse um mínimo de R$ 200, o teto, diante da proposta do senador Pedro Simon, iria a 4 mil, o que implicaria em reduzir à metade o valor atualmente pago a deputados, senadores, presidente, ministros do Judiciário e outros privilegiados. Entretanto, embora pareça efetivamente impossível conseguir que o Congresso aprove medida de tal porte, reduzindo substancialmente o fosso que existe entre a maioria da população trabalhadora e a minoria privilegiada, não há dúvida de que este deveria ser o foco principal deste debate, que acabou sendo propiciado pelo açodamento dos que querem ganhar mais enquanto se insiste em submeter a maioria dos trabalhadores a uma situação indigna. No momento em que se colocam face a face o mínimo e o teto, inclusive com as absurdas aposentadorias que são pagas a alguns políticos e membros do Judiciário, fica muito clara a enorme distorção que persiste nesta democracia eivada de privilegiados. E, naturalmente, aumenta a ira da população, que passa a perceber como vem sendo enganada ao longo dos tempos por uma casta que se coloca além e acima do povo. Modificar esta realidade seria um avanço enorme para o próprio processo democrático. Existem enormes dificuldades para se atingir o ideal, algo como o que foi proposto pelo senador Simon. Todavia, é vital que se busque precisamente este objetivo, reduzindo abusos e garantindo salários dignos.