A política de preços das tarifas públicas e dos combustíveis tem andado sempre na contramão do plano de estabilização da economia. Com efeito, apesar das baixas taxas inflacionárias que foram se registrando desde o lançamento da nova moeda, os reajustes autorizados para as tarifas (como as de água e energia elétrica) e para os combustíveis estiveram sempre acima do patamar registrado pela inflação. Nos primeiros tempos, vale lembrar, foi precisamente este tipo de atitude que tornou mais lenta a queda da inflação. Por outro lado, era constante o temor de que a continuidade desta política poderia prejudicar seriamente todo o projeto de estabilidade. Curiosamente, e comprovando talvez uma vez mais que a economia brasileira tem sempre um tipo de reação diferente da que se observa em outros centros, a taxa inflacionária continuou a carreira declinante, até chegar aos aceitáveis níveis dos últimos anos.
Para justificar esta curiosa situação, surgiram muitas explicações. Durante algum tempo, acreditava-se que as elevações das taxas não chegavam a atingir de modo pleno a inflação devido ao quadro recessivo que se observava no País. Para se contrapor às altas, a população acabava tendo de se abster de consumir. Por outro lado, o comércio, principalmente, necessitando manter o nível de vendas, assumia cortes e mantinha os preços. Assim, a taxa inflacionária se mantinha em patamar baixo, apesar da eventual pressão que advém, naturalmente, de correções em valores sobre água, energia elétrica e combustíveis. Há que se considerar, igualmente, como fator capaz de evitar que as altas atinjam a inflação, a adoção de medidas de racionalização de consumo.
Cada um destes fatores tem, sem dúvida, importância. Entretanto, é possível perceber um outro que começa a ser notado: é a questão dos juros. A taxa básica de juros caiu, no ano passado, de 40% para 19%, uma queda importante a propiciar condições excepcionais para o melhor funcionamento da própria economia. Na verdade, a taxa de juros tem sido uma espécie de última barreira colocada nesta luta para alcançar a efetiva estabilidade da moeda e da economia. Desde que se lançou o plano de estabilização, defendia-se a redução das taxas de juros que atingiam níveis absurdos na época da inflação. A tese era simples: a inflação baixa exigia este tipo de contrapartida. As autoridades econômicas, porém, preferiram ser mais conservadoras. Assim, os juros praticados no Brasil continuaram em patamar dos mais elevados, só começando a apresentar uma queda efetiva a partir do ano passado.
A decisão do Banco Central de reduzir novamente a taxa básica de juros, que passa a ser de 17% ao ano, a partir de amanhã, representa um passo importante na própria sequência do projeto relativo à estabilidade da economia. E representa, sem dúvida, um fator positivo na grande batalha contra a inflação, capaz de superar até as pressões que continuam a ser feitas pelas tarifas públicas ou pelos combustíveis. Com taxas de juro menores, a economia como um todo poderá ser beneficiada, já que há reflexos diretos junto ao consumidor e um consequente aquecimento, sem pressão inflacionária. O que falta, na verdade, é que esta redução (como tantas outras) seja de fato repassada ao consumidor. As investigações da Secretaria de Direito Econômico sobre uma denunciada formação de cartel pelas instituições financeiras, para manter elevadas as taxas de juros, é um passo importante neste quadro. E a constante pressão do cidadão também é elemento capaz de transformar positivamente esta política de juros menores que o BC está implementando.

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