O principal fator do sucesso do plano de estabilização da economia, ao longo do primeiro período de governo do sr. Fernando Henrique Cardoso, foi a credibilidade conseguida junto à população. É certo que a bem estruturada engenharia do projeto foi importante. A base dada pelo governo Itamar Franco, tendo o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, como condutor, foi vital. Todavia, é certo que foi a confiança junto à população que forneceu o alicerce mais importante para um programa que não era (como a oposição tentou dizer) apenas eleiçoeiro. O povo, que sempre deu a seus governantes um crédito de confiança - isso desde o Plano Cruzado, em 1986 - também aceitou bem o programa lançado por Itamar Franco. E sentiu, notadamente depois da eleição de FHC, e ao longo dos primeiros tempos do novo governo, que poderia continuar confiando. Formou-se com isso uma verdadeira cumplicidade povo-governo com o êxito que permitiu que a inflação fosse superada e o País resgatasse sua auto-estima.
Igualmente importante, sem dúvida, foi o fato de o plano ter conseguido também a confiança externa. O Brasil, que não tinha uma imagem internacional das mais confiáveis, revelou-se na execução de um projeto econômico diferente e confiável. É verdade que algumas medidas adotadas para garantir esta credibilidade tiveram efeito ruim internamente, caso da abertura talvez excessiva das importações, o que teve reflexos sobre a situação interna. Entretanto, mesmo esse tipo de ação era aceitável, até porque usou-se a importação como forma de evitar especulações e abusos, na luta contra a alta de preços. Embora essa forma de agir tenha produzido problemas para ponderável parcela do empresariado nacional, é certo que contribuiu para o sucesso da luta contra a inflação. E, por outro lado, serviu também para modificar as mentalidades, obrigando o setor produtivo brasileiro a um esforço para competir com o mercado externo, melhorando seu produto.
A crise que acabou atingindo o Brasil neste começo de ano (e que vinha sendo antecipada há tempos), além de todos os outros efeitos prejudica a credibilidade que o governo havia conseguido, interna e externamente. O povo se assusta com esta verdadeira revolução e começa a duvidar da capacidade de seus dirigentes. Parece incrível. Afinal, é praticamente o mesmo governo do primeiro mandato, com o mesmo presidente inclusive. Entretanto, assim é. Confiança é uma coisa difícil de obter e muito fácil de perder. Neste momento, para tornar o quadro ainda mais complicado, também a margem de credibilidade obtida no exterior, até como reflexo de tudo o que está ocorrendo, torna-se menor. Assim, a gestão FHC precisa não apenas recuperar a confiança interna, mas também restaurar sua posição externamente.
Em termos internacionais, o Brasil começa a se recuperar. A aprovação de Armínio Fraga para a presidência do Banco Central foi um fato positivo. O ministro Pedro Malan havia até cancelado sua participação na reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Voltou atrás e deve viajar a Paris em companhia de Fraga. A definição favorável do Senado mostra um apoio legislativo importante. Segundo um diplomata brasileiro, ‘‘a queda da confiança no mercado mundial foi absoluta, mas a recuperação será gradativa’’. E pode começar na reunião do BID. O desafio maior, porém, está na área interna. O aumento na taxa de juros e a elevação dos preços dos combustíveis, entre outras medidas, ampliam a dificuldade. O governo precisa, agora, agir rápido e com objetividade para recuperar a confiança do povo - fundamental para a continuidade e o sucesso do projeto econômico em vigor.

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