Editorial - Recomeço permanente
O primeiro dia de um novo ano - ainda que se saiba que se trata de uma convenção que atinge apenas parte deste mundo, tão dividido até em suas formas de medir o tempo -, traz em si uma espécie de encantamento que anima as pessoas e lhes dá um tipo de entusiasmo que os mais religiosos traduzem numa única palavra: esperança. Afinal, já diz o provérbio popular, a esperança é a última que morre, o que significa que se trata de um tipo de sentimento, indefinível mas aparentemente ligado à condição humana, que prevalece mesmo contra toda a lógica. Haverá sempre os que só conseguem ver o lado ruim, os que insistem em afirmar que o dia 1º de janeiro é apenas uma convenção para quem usa o calendário ocidental e cristão. Mas até mesmo os que tentam se mostrar racionais têm, no fundo, uma certa expectativa, uma convicção de que a mudança existe e que o momento em que se abre um novo ano é quase mágico. E no fim, a intensa onda de emotividade que cerca a data e o imenso cabedal de esperança que atinge milhões de pessoas por todo o mundo também criam uma perspectiva positiva, como se o desejo comum por dias melhores, por um futuro mais brilhante, por uma vida com dignidade e esperança forjassem em si uma força invisível, mas real.
Ademais, este primeiro de janeiro de 1999 traz mudanças reais e concretas na vida política do País. Não haverá um novo presidente e nem um novo governador. Mas para ambos, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Jaime Lerner este dia significará um novo começo, com a posse para o segundo mandato para o qual ambos foram reeleitos. A reeleição não constitui uma sequência, mas é um novo começo, avalizado pelo eleitor que outorgou um mandato a mais. Se é certo que isto possibilita a ambos - assim como outros governadores reeleitos em vários Estados -, iniciar com base na experiência dos 4 anos precedentes, é igualmente correto sentir que há um recomeço e que o segundo mandato implica na renovação da esperança, com uma garantia adicional dada pelo que foi feito ao longo do primeiro período governamental.
Este é um outro dado fundamental na vida das pessoas como das instituições: pode-se recomeçar a cada dia, principalmente a cada ano, mas traz-se a bagagem daquilo tudo o que se construiu ao longo do tempo. FHC e Lerner se reelegeram em outubro porque fizeram um trabalho considerado bom pelo povo assim como foram eleitos, há quatro anos, em função de sua carreira pública e privada. O que fizeram aponta como garantia para o que poderão fazer. É exatamente o que se comenta a respeito de confiança - que, no fim, é a base de uma eleição ou de qualquer escolha que o ser humano faça -, que se adquire com trabalho, dedicação, honestidade e visão.
Esta base também pode ser sentida por um órgão de comunicação como a Folha, que acaba de completar seus 50 anos e que conquistou, neste meio século, a confiança da população do Paraná. É o alicerce que sustenta a confiança, que fundamenta a esperança, que dá ao começo de mais um ano aquele brilho necessário e que, de certo modo, alimenta a vida. Os problemas existem, persistem, são grandes, tanto para os cidadãos como para o Estado, o país, o mundo. A mudança de calendário não altera as dificuldades de cada um.
Há, porém, a esperança, baseada na convicção de que todos os problemas antepostos ao ser humano constituem desafios que podem ser vencidos. Na verdade, esta postura positiva, e necessária, representa por si o começo da vitória. É levar para todo o ano que começa esta mesma chama que brilha no primeiro dia dele, para converter cada dia em um recomeço e em uma conquista.





