O Governo largou as amarras do real, o dólar subiu, as bolsas dispararam e, diante da expressão de satisfação dos que, na véspera, antecipavam o apocalipse, restam imensas dúvidas para o cidadão comum. Conclusão óbvia diante deste novo quadro: a cotação do real não era real. E qual será a consequência? O presidente Fernando Henrique Cardoso, que está tirando férias aos pedaços (sai, volta correndo por causa da crise no BC, retoma o descanso, vem de novo às pressas para o palácio), já fez o tradicional discurso enfatizando aquilo que a gente ouviu tantas outras vezes: que vai defender o real, que não permitirá que a economia naufrague. Não faltam porém os que dizem que o naufrágio já aconteceu, só o presidente não percebeu.
Em meio à euforia dos operadores nas Bolsas, aqui e lá fora, o temor dos catastrofistas de plantão, a alegria de setores que realmente se sentem beneficiados (como os exportadores) e a preocupação dos que sofreram forte impacto (a Disapel, por exemplo, acaba de pedir concordata) há fatos claros. De um lado percebe-se que existe uma orquestração bem articulada para provocar o clima de incerteza, muito propício à especulação. De outro, há a percepção de que assim como a crise nas Bolsas não reflete a realidade das coisas no mundo concreto, assim também é possível sentir que o Brasil tem plenas condições de superar este baque inicial. As previsões já antecipadas sobre uma taxa inflacionária em torno de 7%, este ano, não deve chegar a assustar uma população que viveu com inflação acima de 1% ao dia há bem pouco tempo.
O problema das previsões catastróficas é que, muitas vezes, os boatos alimentam os fatos. Sexta-feira se antecipou inflação de 7% ao ano e isto pode produzir aquele famoso, terrível e assustador efeito cascata, resultando em altas e trazendo de volta o fantasma que pensávamos ter exorcizado de uma espiral incontrolável. Também para tentar evitar esta consequência é que o presidente foi à TV, insistindo em que não vai permitir descontrole. Ocorre que numa economia livre, o Governo pode fazer pouca coisa. O que, aliás, nos remete talvez a uma das causas de toda esta confusão atual: o Brasil tentou, desde o lançamento do plano de estabilização, estabelecer precisamente uma economia livre de mercado. Paralelamente, criou uma estrutura cambial engessada. Não é de hoje que se discute isto, que os especialistas falam em cotação irreal da moeda nacional. Um dos resultados desta política tem sido a dificuldade brasileira para competir no mercado, com sucessivos déficits na balança. Com moeda falsamente cotada, fica difícil competir.
O que pode evitar uma eventual espiral inflacionária dos preços não é o anúncio do Governo. É a situação efetiva de um mercado em recessão. Caso haja algum tipo de ensaio altista, o consumidor vai reagir e não apenas porque está melhor educado, mas porque dispõe de poucas reservas. O desemprego é uma realidade; a queda nos salários, também. Uma onda especulativa vai esbarrar na falta de condições do consumidor e pode até resultar em prejuízo para os especuladores. Infelizmente, existe o outro lado da questão: a recessão, que já é dura, tende a piorar.
Algumas variáveis é que vão definir o que virá nos próximos dias. Se o real, solto no mercado, encontrar um nível razoável, os efeitos mais danosos desta nova situação serão absorvidos, ainda que dolorosamente. Para que isto ocorra, porém, é necessário um mínimo de seriedade. O Congresso precisa fazer sua parte, no ajuste e nas reformas. Os governadores e prefeitos não devem entrar no cordão de Itamar Franco. O executivo tem de manter o pulso para conter os especuladores. Quanto ao povo, vai sofrer e fazer - como sempre - a sua parte.

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