EDITORIAL - Reações na Argentina
O novo pacote econômico lançado pelo governo argentino provocou enorme reação em quase todo o país. Para justificar a adoção das medidas, o ministro de Economia, José Luis Machinea, assinalou que sem o ajuste estaria em risco a possibilidade de a Argentina ter acesso ao mercado e à reativação econômica e também à convertibilidade do peso. Enfatizou ainda que a longo prazo certamente a convertibilidade (um peso igual a um dólar por lei desde 1991) também perigava e assegurou que o pacote de medidas não é mais drástico do que o esperado. O ministro lembrou que o país enfrenta uma situação internacional que nos últimos 45 dias mudou, em prejuízo da Argentina. As afirmativas de Machinea, porém, não parecem ter tido efeito muito grande. Greves, protestos, bloqueio de estrada e ocupação de instalações se registraram ontem na Argentina como consequência praticamente direta do rigoroso ajuste econômico com cortes das despesas do Estado. A greve decretada a partir da zero hora de ontem pela Associação do Poder Legislativo (APL), para protestar contra a supressão da imprensa oficial, teve elevada adesão no Palácio do Congresso e afetou a atividade das duas Câmaras. Muitos empregados estavam parados nas portas de acesso às Câmaras e nos corredores internos, em assembléia permanente, sem cumprir as atividades de rotina. Por sua vez, os funcionários da agência governamental de notícias Télam, da qual o governo decidiu retirar a área de publicidade (principal fonte de receita porque reúne toda a propaganda oficial), e vender o prédio no qual funciona, mantinham a ocupação das instalações à espera de uma solução alternativa. Os líderes sindicais denunciaram que vão ficar sem trabalho pelo menos mais de 200 pessoas, sobre um total de 600. Na segunda-feira deram um abraço simbólico no prédio em sinal de protesto para resguardar as fontes de trabalho.
Ontem, também, 3.000 produtores de arroz bloquearam a estrada nacional 18 na altura da localidade de San Salvador (província de Entre Ríos), reclamando uma série de medidas que, segundo eles, o governo precisa adotar para superar a crise que o setor enfrenta. O bloqueio provocou longas filas de carros já que se trata de uma estrada com muito movimento, que liga a província de Leste a Oeste. Os produtores se queixam porque nesta temporada não obtiveram crédito algum de sua produção por causa da queda do mercado no Brasil e por causa das chuvas, primeiro, e da seca, depois. Além disso, mil trabalhadores e empresários da região patagônica e do sul da província de Buenos Aires se manifestaram para exigir do governo que levante a proibição à pesca da merluza hubbsi em todo o Mar Argentino. O secretário-geral do Sindicato de Operários Marítimos Unidos (Somu), Enrique Suárez, afirmou lutar para preservar as fontes de trabalho e lembrou que a proibição da pesca de merluza afeta 20.000 famílias.
Uma vez mais é possível perceber que, no vizinho país como no Brasil, as autoridades responsáveis pela economia continuam a seguir uma cartilha que não é a adequada. Pacotes econômicos, anúncios de cortes de salários, mais impostos (o que não aconteceu agora, mas é sempre um meio usado por governos incompetentes para tentar sair do buraco que eles mesmos fizeram) representam alternativas equivocadas. A manifestação dos produtores de arroz e dos pescadores, que faz o contraponto à greve dos funcionários atingidos pelo pacote, evidencia o erro: um governo que não cuida da produção, não estimula o trabalho, não pensa em soluções para a situação dramática do seu povo, vai ter de usar pacotes até que venha a ser ele mesmo empacotado por um corpo eleitoral que não aguenta mais ser a vítima da incompetência oficial.





