Ao lançar o Plano Cruzado, em 1986, o então presidente José Sarney fez uso dos institutos ditatoriais ainda vigentes (o País havia emergido há pouco do período totalitário) para fazer vigorar as medidas de congelamento de preços e salários, além de outras que compunham o arcabouço do programa. Com os existentes poderes do decreto-lei as coisas eram simples: o Executivo editava instrumentos que entravam em vigor de imediato, produziam efeitos e eram quase impossíveis de serem derrubados pelo Congresso - mesmo porque, o Legislativo ainda vivia a fase de subserviência gerada por 21 anos de ditadura.
Hoje, o Executivo não dispõe mais de tal recurso. Sem dúvida, ainda existem as Medidas Provisórias que, como os decreto-lei, entram em vigor de imediato. Entretanto, as MPs podem ser derrrubadas com mais facilidade pelo Congresso e o próprio Executivo sabe que tentar criar situações de força, como no passado, para enfrentar a crise de agora, constitui o mais grave dos equívocos que podem ser cometidos neste momento. Claro, o Executivo pode decretar feriados bancários. Mas determinar congelamentos, confiscos, bloqueios de dinheiro, isto tudo não lhe é mais facultado com a facilidade existente nos tempos do regime militar. Se tentar fazer coisa assim, provocará sem dúvida uma situação tão caótica que poderia colocar até o regime e o sistema em perigo.
A ação irresponsável dos boateiros de plantão, que na sexta-feira disseminaram o pânico pelo País, merece eviventemente a condenação de toda a sociedade brasileira. Entretanto, o fato de muitos terem acreditado na hipótese de uma virada total na economia - alguns chegaram até a correr a bancos para tirar dinheiro das contas e da poupança - constitui um sinal flagrante da perda, por parte do Governo, da confiança popular. Quando se recorda que foi a credibilidade do povo em relação às autoridades um dos fatores fundamentais para o sucesso do plano de estabilização, é possível perceber o problema real que existe agora. Um Executivo recém-reeleito que assusta a população, que não tem a confiança do povo está, sem dúvida, em situação muito complicada.
O grande desafio do Executivo é precisamente este, o da quebra da confiança popular. Com certa razão. O presidente e todos os membros da equipe econômica vinham garantindo que o real não seria desvalorizado. De repente, foi. E está caindo. Cai um pouco porque de fato estava supervalorizado e muito em razão da especulação. Ora, é difícil que alguém possa manter a confiança diante de um fato tão evidente. Pouco adianta o presidente e o ministro da Fazenda virem a público todos os dias (até várias vezes por dia) para garantir que isto ou aquilo não vai acontecer. Afinal, também haviam garantido outra coisa, há pouco. E não mantiveram a palavra.
O desafio, neste momento, é precisamente o de recuperar a credibilidade, restaurar a confiança. E, sem dúvida, isto não será conseguido com discursos, promessas (até porque a época eleitoral, que é a das promessas, já passou), mas com ação, com atitudes. É certo que há tantos e tão sérios problemas reais e imediatos que a tarefa oficial de realizar algo palpável é complicada. Mas possível, desde que FHC e seus ministros deixem de se preocupar em ficar fazendo discursos e se envolvam com o que de fato é importante para o povo.
O que se precisa agora, mais do que de garantias e promessas, é de uma ação concreta nas áreas internas importantes da produção e do trabalho. Esta desvalorização cambial pode ser boa para o Brasil, que terá melhores condições de competitividade na exportação. Precisa, porém, é investir nisto, dar apoio ao setor produtivo e estimular a criação de empregos como forma de garantir trabalho aos milhões que vivem hoje sem esperança.

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