O G-8, que reúne os 7 países mais ricos do mundo – e que se chamava G-7 antes da participação da Rússia, talvez em homenagem ao tempo em que a União Soviética dividia o poderio nuclear no mundo com os EUA –, resolveu iniciar uma grande ofensiva para levar a paz ao mundo. A proposta prevê o envio de emissários aos países pobres em guerra, fortemente endividados, e propor uma saída: redução da dívida em troca do fim dos conflitos. Trata-se, sem dúvida, de uma das mais absurdas colocações já observadas em toda a história da raça humana, deixando até muito evidente que naquela grande batalha anunciada no Evangelho por Jesus, entre Deus e Mamon, o segundo está ganhando disparado. De repente, os países ricos do mundo mostram sua face real, deixando clara a idéia segundo a qual tudo pode ser comprado, inclusive a paz.
Este equívoco é tanto mais grave na medida em que coloca em primeiro plano uma tese que reduz o próprio sentimento humano, em qualquer nível, a valores econômicos. Com efeito, e nisto o G-8 imita as pessoas muito ricas, é bastante elevado o número dos que acreditam que o dinheiro resolve todos os problemas. E há muitos países pobres (e bilhões de pessoas pobres) que também podem pensar o mesmo. Todavia, a simplificação da questão é absurda demais, na medida mesmo em que não contempla todos os fatores que, agora como no passado, levaram os homens a guerras sem fim. Vale sempre lembrar a lição do historiador Henry Thomaz, para quem a história da humanidade é a história das guerras. Desde os faraós do antigo Egito até os tempos atuais nos países miseráveis da África, a guerra, localizada, pequena ou de magnitude mundial, faz parte da vida dos povos.
Pretender que com a redução da dívida, ou mesmo com o perdão total dos débitos, vai-se conseguir transformar o planeta é mostrar uma visão deturpada sobre o próprio homem e coloca, no mesmo nível, os pobres infelizes que guerreiam com armas e os ricos do G-8, que usam o dinheiro para dominar o mundo. Um só conflito, milenar, irresolvido e que ameaça eclodir de novo em armas, pode por si derrubar toda esta falácia arquitetada pelos milionários do G-8. Não há dinheiro no mundo que resolva o conflito entre Israel e os palestinos, envolvendo Jerusalém. As piadas que envolvem os semitas a respeito dos bens materiais caem por terra diante da questão complexa que envolve a cidade, que é santa para as três maiores religiões monoteístas do mundo. E nem todo o dinheiro do G-8 poderá fazer palestinos ou israelenses desistirem de Jerusalém.
Há, naturalmente, um sem número de conflitos envolvendo interesses econômicos. A miséria de muitos países, a péssima distribuição de renda em outros (inclusive o Brasil) representam por si fatores desagregadores capazes de gerar conflitos. Ainda assim, é um raciocínio até perigoso este que coloca a possibilidade de solução das guerras na fórmula de redução ou perdão das dívidas. Mais ainda, é profundamente assustador perceber como os países ricos não entendem ainda que ponderável parcela das guerras que ocorrem pelo mundo resultam de suas políticas agressivas, torpes, mesquinhas, de ações que ao longo do tempo os tornaram os mais poderosos, em detrimento dos povos nos cinco continentes. Esquecem, convenientemente, as políticas de colonialismo, de exploração que realizaram por todo o mundo, e tentam posar agora de ‘bons moços’, abrindo o bolso para comprar a paz, do mesmo modo como compraram vidas no passado. Este tipo de atitude, afinal, define bem o mundo ao tempo em que assusta a humanidade, que está a mercê de líderes que não sabem sequer que a dignidade humana não tem preço.

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