Editorial - Quadro alentador
Desde que se começou a calcular oficialmente os níveis da inflação, o mês de julho registrou uma das maiores deflações (reduções de preços) do Brasil, segundo informou o IBGE. A deflação oscilou entre 0,28% e 0,12%, pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) e IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado). O INPC, que registra os aumentos da cesta familiar dos trabalhadores que ganham entre um e oito salários mínimos (US$ 114 e US$ 912), registrou redução de 0,28%. Com isto, o INPC se eleva a 2,95% nos sete meses de 1998 e a 4,07% nos últimos doze meses.
Já o IPCA, que calcula o aumento de preços da cesta familiar dos que ganham entre um e 40 salários mínimos (US$ 114 e US$ 4.560), registrou deflação de 0,12%. O IPCA acumula uma alta de 2,17% entre janeiro-julho e de 3,06% nos últimos doze meses. E como sempre há quem tenha dúvidas sobre os números oficiais, vale lembrar que a pesquisa nacional da cesta básica de julho do Dieese mostra queda de preços no conjunto dos gêneros de primeira necessidade em 16 capitais em que a entidade realiza o levantamento. Os menores recuos foram apurados em Porto Alegre (-1,70%) e Aracaju (-2,83%), e os maiores em Recife (-9,55%), Fortaleza (-8,27%) e Vitória (-7,41%). A última vez em que o custo da cesta caiu em todas as localidades foi há um ano, em julho de 1997. Apenas duas capitais mantiveram em julho o valor da cesta acima de R$ 100,00: São Paulo (R$ 105,08), a cidade mais cara pelo 3º mês consecutivo, e Porto Alegre (R$ 102,59). Em maio, o mesmo patamar foi verificado em seis cidades e em junho, em quatro. Os menores custos foram apurados em Recife (R$ 83,88) e Goiânia (R$ 84,39).
O que se tem, com os dados do Dieese respaldando os números oficiais, é a confirmação de que a inflação brasileira, neste momento, atingiu o sonhado patamar de um índice negativo. Mais que isso: talvez o fator mais importante seja o de que não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma tendência. Ademais, as mais recentes medidas, entre as quais a que possibilitou a queda nos preços dos derivados de petróleo, ao lado da que reduziu a alíquota do IPI sobre veículos, fornecem combustível suficiente para que persista a queda no índice inflacionário, até porque se trata de insumos que pesam demais sobre o custo de vida.
Esta situação, por outro lado, representa importante fortalecimento para o real, que atravessa o seu quarto ano de vida com uma solidez invejável. Não se pode esquecer que a inflação reduzida desde o início da nova moeda, embora em níveis bem mais civilizados que a existente antes do plano, representou uma perda para o real. Quando a moeda surgiu, o dólar era cotado a menos de um real. Hoje, passa de R$ 1,20, oficialmente, e há quem diga que a cotação está arrochada. De qualquer modo, há uma perda que não assusta, mas, naturalmente, ainda constitui fator de preocupação. Com a deflação, além de tudo, recupera-se o valor da moeda.
As notícias sobre a queda no valor da cesta básica são igualmente valiosas porque indicam melhoria na capacidade aquisitiva do trabalhador. É uma reversão importante a atestar não só que o caminho trilhado é o correto mas, e talvez principalmente, que é possível ir muito além nele, com resultados ainda mais importantes porque representam vantagens para a parcela mais carente da população. A contenção da inflação, pelo Plano Real, possibilitou o resgate de uma ponderável parcela de brasileiros que vivia na faixa da miséria. O quadro atual permite esperar que este resgate social continue.





