Editorial
Provão caro
Depois do provão, instituído pelas autoridades da educação para avaliar o ensino superior no país, agora se anuncia para agosto o primeiro Exame Nacional de Ensino Médio. A intenção é a mesma: fazer uma avaliação da situação geral do ensino no segundo grau. Este tipo de prova, porém, não é obrigatório, o que é um dado interessante. O estudante só participa se quiser. Por causa desta situação foi estabelecido um valor de inscrição a ser pago pelos interessados: 20 reais. Sem qualquer dúvida, este simples fato por si já acaba servindo como fator para reduzir em muito a motivação dos alunos. Por mais que se pondere que a quantia é baixa, é sempre preciso pensar em termos da situação média geral da população brasileira e rememorar que a maioria sobrevive com um salário muito baixo.
Na verdade, seria possível até apostar no fracasso total da idéia. Afinal, implantar uma prova não obrigatória, que não vale nada para quem a faz e ainda custa caro dá a impressão de verdadeira tolice. Há, porém, um detalhe que muda tudo. Acontece que o resultado do provão pode ser usado pelas universidades como um dos critérios para o preenchimento de vagas no ensino superior. Assim, quem não participar por qualquer motivo (e é certo que a taxa de inscrição constitui por si um entrave) corre o risco de ficar inferiorizado na difícil luta do vestibular.
Com isto, o que é facultativo torna-se quase obrigatório. E mesmo quem venha a ter problemas para pagar a inscrição terá que dar um jeito para tentar garantir algum tipo de vantagem no vestibular. E, naturalmente, quem vai sair ganhando bastante será a organização da prova. Afinal, multiplicar 20 reais por alguns milhares de estudantes representa quantia nada desprezível. E ainda que se considere que há gastos com as provas, seguramente a taxa estabelecida vai além disto. A impressão é a de mais uma exploração contra o aluno da escola pública, que em muitos casos só pode estudar devido à gratuidade do ensino.
O nível do ensino brasileiro, desde o primeiro grau ao curso superior, vem sendo discutido há muito tempo. As críticas são fortes. É certo que uma avaliação, como a que se faz nos chamados provões, é interessante, ainda que não seja plenamente conclusiva. Representa ajuda importante. E a idéia de fazer este tipo de teste para os alunos do segundo grau é do mesmo modo correta, principalmente se existir a vontade política de se mudar as coisas, melhorar o ensino. E isto parece estar acontecendo. A Câmara de Ensino Superior do Conselho Nacional de Educação aprovou o parecer sobre a reforma no ensino médio, que acaba com o ensino técnico e profissionalizante tal como existe hoje. A expectativa é de que a reforma seja implantada gradativamente, dependendo da organização dos Estados. A proposta é preparar o aluno tanto para continuar os estudos como para o mercado de trabalho, com uma metodologia que privilegia a capacidade de raciocinar, aprender sozinho, tirar conclusões. É sugerida ainda uma nova forma de ensinar as disciplinas tradicionais, que estimula o raciocínio e a aplicação de conceitos sobre situações reais. O ensino médio não será mais profissionalizante. É uma tremenda e importante mudança.
Falta apenas, para dar à realização deste provão uma conotação mais democrática, uma simples mudança: o cancelamento da taxa para os interessados. Se isto for considerado impossível, porque há despesas (embora o orçamento da educação deva ter recursos para tais iniciativas), pelo menos que haja redução substancial no valor arbitrado, o que representaria um problema a menos para os estudantes do segundo grau.

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