Editorial - Privilégios inaceitáveis
Privilégios inaceitáveis
Assunto muito discutido no final de 1999, o valor que cada membro do Congresso vai receber por conta da convocação extraordinária está caindo no esquecimento, atropelado por outras questões. Neste momento, o que preocupa os políticos notadamente o presidente da República é a pauta da convocação, bastante nutrida, que não será plenamente cumprida de tal modo que, agora, discutem-se prioridades. Com alguma sorte, o Governo verá aprovado o projeto que cria a Desvinculação de Receitas da União, DRU, novo nome para o antigo Fundo de Estabilização da Economia que vem sendo prorrogado constantemente porque não se concluíram as reformas estruturais e o Executivo precisa ter mobilidade para uma parte dos recursos tributários. Já se antecipa que dificilmente será aprovado o Orçamento, durante a convocação, que vai até 14 de fevereiro (e que por sorte não será interrompida pelo Carnaval), até porque este último depende da DRU. Outra possibilidade é a da discussão da matéria relativa à limitação de Medidas Provisórias, assunto que não interessa ao Executivo, mas que faz parte da convocação e talvez motive a oposição.
Para apreciar estas e algumas outras questões relevantes, cada parlamentar vai receber algo em torno de R$ 24 mil, sem dúvida um pagamento nababesco em qualquer circunstância e que ainda se torna muito mais atrativo quando comparado com o ganho de um cidadão comum aquele que vota, que forma o Congresso, que é, conforme a Constituição, o detentor do Poder que talvez não receba este valor em 35 anos de vida ativa (nem em mais alguns anos de aposentadoria). Infelizmente, porém, este aspecto foi posto de lado, devendo voltar a ser abordado em julho ou no final deste ano, se outra vez se resolver convocar extraordinariamente o Congresso. No entanto, o momento continua oportuno e o assunto precisa não apenas ser debatido, mas aprofundado, inclusive mobilizando-se a opinião pública sobre ele.
Ninguém discute que os representantes do povo, em todos os níveis, devem ser remunerados adequadamente. Membros dos Legislativos estaduais e federal não podem, efetivamente, exercer outra função durante o mandato. Precisam se mudar, levar a família. Necessitam, sem dúvida, de vencimentos compatíveis com suas obrigações e funções. O que um país democrático gasta para manter o funcionamento dos poderes é parte de um todo. Todavia, é preciso considerar que o vencimento de cada um dos membros do governo, em todos os escalões, é assunto de interesse coletivo. Não pode ser um segredo de Estado. Por outro lado, não se pode aceitar o tipo de abuso que, infelizmente, prolifera. Deputados estaduais e federais têm uma série de vantagens, algumas das quais sequer foram reveladas. Muitos contratam parentes, amigos e cabos eleitorais usando o dinheiro dos contribuintes para pagar favores ou garantir melhoria no orçamento familiar.
Neste quadro, o abuso das convocações extraordinárias é apenas parte de um todo. Entretanto, é parte significativa. Os legislativos funcionam em regime escolar com férias de inverno e outras mais longas no verão. E como não fazem o que devem no período normal, acabam sendo convocados extraordinariamente, como acontece agora e como já ocorreu antes. E o povo paga. Já é tempo de se discutir toda esta questão com a maior profundidade. O povo, que é dono do poder, não pode ser explorado deste modo. O sistema formou castas, em que os representantes colocam-se acima da população. Isto é inaceitável em qualquer regime democrático.





