O governo brasileiro pretende realizar hoje o maior leilão de privatização da história do País e um dos maiores do mundo. Serão vendidas as 12 companhias criadas a partir da cisão da Telebrás, três de telefonia fixa, oito de telefonia móvel celular e uma de telefonia de longa distância. Toda a tensão que precedia este momento, verdadeiramente histórico, deve atingir o auge. Trata-se de um acontecimento que muda definitivamente a estrutura estatizante que marcou praticamente toda a história do País. Por isto, e também pelo montante financeiro que envolve e por todo o entrechoque de idéias sobre o melhor modo de realizar o serviço público, é que as atenções todas estarão voltadas para o leilão e para suas consequências.
Envolvendo, como se percebe, não só a troca de controle acionário de empresas de enorme importância na vida do País, o leilão em si provoca uma série imensa de reações. Uma delas, a principal, é a que se consubstancia na imensa série de ações que já tramitam na Justiça, na maior parte dos casos visando suspender o leilão. Este é o caminho adequado, um direito de cidadania, para quem contesta, de qualquer modo, a iniciativa do governo. Infelizmente, porém, ao lado desta maneira de agir, começam a ocorrer outros episódios, inaceitáveis e injustificados, como o ato de sabotagem contra torres de comunicação da Embratel, em Santa Catarina, ou a invasão do prédio do BNDES por parte militantes do MST, com reforço da CUT.
É preciso ter em mente que esta verdadeira revolução provocada pela privatização do sistema Telebrás representa o caminho natural para a concretização de todas as mudanças que se realizam no Brasil desde o início do plano de estabilização da economia. A idéia de um governo que tudo controla não é só inadequada, mas contrária à própria dinâmica de uma sociedade humana em que o cidadão é o efetivo detentor do poder e em que o Estado apenas realiza seu trabalho em nome dele. E o trabalho do governo é o de administrar a coisa pública. Tudo o mais, compete ao cidadão, à iniciativa privada. Tal mudança de mentalidade, naturalmente, ainda mais em um país que viveu longos anos sob a tutela de governos do tipo patriarcal, chega a ser traumática. Há quem se sinta desamparado quando o Estado se afasta. Mais concretamente ainda, há quem perca poder por causa disto, os aproveitadores, os que transformam o governo em sucursal de seus próprios interesses, os que mamam nas tetas oficiais sem vergonha e sem preocupação.
Por questões de ideologia, por interesses elevados ou até ocultando pretensões pessoais, todos quantos são contra a privatização podem, no regime democrático, não só expor suas idéias, mas também defender suas posições, como foi feito durante o processo legislativo que conduziu à privatização e como está ocorrendo agora, através das tentativas judiciais. Seguramente, até porque tudo vem sendo feito dentro do que estabelece a lei, as ações tendentes a obstar o processo deverão cair. E, democraticamente, há que se aceitar isto.
O que não poderia acontecer é o tipo de reação violenta, a sabotagem contra a Embratel ou qualquer outra empresa envolvida na privatização, a invasão de propriedades públicas, atitudes incompatíveis com o respeito à lei, à Justiça e à civilização. É lamentável que isto ainda ocorra, mas, infelizmente, não é inesperado. O que é preciso é que, em tais casos, a lei e a ordem se imponham aos que querem tumultuar o processo.

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