Editorial - Privatização da Telebrás
O leilão do sistema Telebrás é um fato marcante na história brasileira, independente do valor obtido, do número imenso de ações judiciais e da pressão dos manifestantes, algumas das quais indo além do que a civilidade recomenda. A maior privatização do País, e uma das maiores do mundo, foi feita com transparência, concluindo uma etapa vital na grande mudança que se processa no Brasil. Ademais, a confiança evidenciada por empresas de grande porte de vários países, que investiram pesado para conquistar parcelas do bloco posto à venda, constitui também um sinal extremamente positivo. Não estamos diante de capital do tipo especulativo, como o que já provocou impactos tenebrosos sobre as economias de muitas nações - inclusive o Brasil -, mas de empresas sérias e poderosas, que estão investindo aqui alguns bilhões de dólares e se mostram dispostas a trabalhar para fazer render este dinheiro. O resultado destas operações atinge cifras difíceis de imaginar, tanto em investimentos que deverão ser feitos pelos vencedores das concorrências como no próprio mercado, que vai se expandir tremendamente.
Afirmar, como insistem alguns antigos defensores do estatismo, que o Brasil perdeu, que deu seu patrimônio, é uma inverdade. O que aconteceu foi, basicamente, o entendimento de que o Estado não é, nem deveria ser, empresário. No Brasil, por muitos anos, o governo foi considerado um tipo de grande pai, idéia que agrada muito aos demagogos e que está na base mesmo de sistemas disfarçadamente totalitários. Ademais, a idéia de que o Estado deveria participar da atividade produtiva partia da premissa simples de um mercado empresarial fraco: incumbiria ao governo investir naquilo que o particular não teria condições de fazer, como a exploração do petróleo e de outros minérios, empresas de energia, água e telefonia, entre outras. São empreendimentos que exigem muito capital inicial e que, na teoria nacionalista, ficariam melhor em mãos do governo.
O que vem sendo desmistificado hoje é o fato de que uma empresa ser do governo não quer dizer que seja do povo. Não era e nem é do povo a Petrobrás, como não eram e não são do povo as empresas de telefonia ou tantas outras estatais que ainda existem. Em muitos casos, as estatais se transformaram foi em imensos elefantes brancos, dominados por privilegiados marajás, que se auto-outorgavam vantagens e benefícios que em nada beneficiavam o povo. O brasileiro nada ganhou pelo fato de haver um monopólio estatal de petróleo. Também não se beneficiou muito do estatismo da telefonia. É só observar a situação geral no País, com um déficit imenso de telefones, para perceber que o que de fato ocorria era uma situação que priorizava uns poucos (normalmente os apadrinhados da política), sem vantagem real alguma para a população.
Para o País, a privatização abre uma etapa de enorme importância. Para o governo, há benefícios diretos imediatos, entre os quais a entrada de uma enorme quantia que precisa ser bem usada pelas autoridades. O Ministério da Fazenda quer que todos os recursos arrecadados com a venda da Telebrás, até mesmo o ágio, sejam usados para abater a dívida pública. O presidente Fernando Henrique Cardoso admitiu usar parte dos recursos em outras áreas. É preciso pensar bem neste assunto e lembrar um detalhe: os juros da dívida pública, este ano, vão consumir R$ 50 bilhões. É bom usar tudo quanto se possa para reduzi-la, o que atestaria até boa fé de parte dos nossos administradores. E representaria um passo a mais no processo de estabilização da moeda.





