Editorial - Prioridade à saúde
O sarampo deve estar erradicado na América até o ano 2000, conforme afirmativa do diretor em Washington da Organização Pan-Americana da Saúde, Ciro de Quadros, durante a realização da Reunião sobre o Programa Ampliado de Vacinação no Cone Sul, Bolívia e Brasil, na capital uruguaia. Quadros recordou que há dez anos era registrada uma média de 200.000 casos de sarampo por ano nas Américas, cifra que, em 96, se reduziu a somente 2.109, o número mais baixo da história. No ano passado houve registro importante no Brasil, que depois se propagou para o Paraguai, Peru, Chile, Costa Rica e Estados Unidos, e agora está sendo controlado com campanhas de vacinação, segundo as informações de Quadros. Na maioria dos países, a transmissão está interrompida. Isto significa que realmente se pode erradicar o sarampo até o ano 2000, meta ambicionada pelos governos das Américas, assegurou.
Não há como discutir que esta meta é plenamente possível. A vacina contra o sarampo torna natural até o objetivo de erradicação da doença, que tem causado milhares de vítimas, notadamente nos países da América Latina. Com a vacina, o que se faz necessário para erradicar qualquer doença é apenas disposição por parte das autoridades. Já aconteceu com relação à poliomielite, mal terrível que vitimava principalmente as crianças e que se não matava deixava graves sequelas. Com o surgimento da Sabin, principalmente, de mais fácil aplicação, foi só uma questão de vontade política dos governantes para se chegar à erradicação do mal. Há muitas doenças que podem ser evitadas pela vacina, mas que continuam vitimando e matando gente. E o motivo é o mesmo: falta de vontade de se enfrentar o drama com a devida coragem.
Os fantásticos resultados conseguidos com a erradicação da pólio no Brasil comprovam por si que é possível resolver pelo menos este tipo de problema da saúde pública, acabando-se com doenças que podem ser evitadas pela vacinação, caso do sarampo, tétano, coqueluche, difteria, enfermidades que atingem tantas crianças. O que é preciso, sempre, é disposição efetiva da autoridade e a definição de prioridades. Dizer que faltam recursos é buscar desculpas: os meios existem. Infelizmente, como disse o ex-ministro Adib Jatene, no Brasil não há verdadeira preocupação com a saúde. Este é o ponto e o grande desafio.
O mais triste nisto é saber que o equívoco de governantes, que negam recursos para os programas de saúde, aumenta as dificuldades de todo um povo. É de se lamentar que quem governa não perceba que os gastos na saúde, como na educação, representam efetivamente investimentos de enorme retorno. Na medida em que o povo tenha menos doenças, em que caia o índice de mortalidade e as pessoas sejam mais saudáveis, haverá melhoria geral na vida de toda a população. E com recursos para prevenir doenças, caso das campanhas de vacinação, serão até menores as necessidades para o atendimento do povo. É um trabalho de base, que constitui mais que um desafio, representa a escolha definitiva por parte dos governantes por caminhos que propiciem melhores condições de vida para todos.
Erradicar doenças como o sarampo constitui meta factível, assim como um trabalho de saneamento capaz de acabar com a cólera, que volta a atingir o Nordeste, ou com a dengue, que atinge muitos Estados. O que é preciso, apenas, é que se modifique a visão sobre os problemas dos brasileiros e que se priorize o atendimento à saúde da população.





