Previsões que não se cumpriram
O famoso autor de ficção científica Isaac Asimov previa, em 1969, que no ano 2000 as necessidades energéticas da humanidade seriam asseguradas ‘‘por fontes nucleares, inclusive de pequeno tamanho’’, e que os aparelhos eletrônicos ‘‘seriam alimentados por baterias de longa duração com radioisótopos’’. Trinta anos depois, apesar da energia nuclear ter um espaço maior, o carvão, o petróleo e o gás natural continuam a ser as principais fontes de energia no mundo. Em 1967, o vice-presidente norte-americano, Hubert Humphrey, antecipou que em 2000 ‘‘as bactérias e as doenças estariam praticamente eliminadas’’. Mas, no transcurso das últimas duas décadas, mais de 30 vírus apareceram no mundo, e várias doenças, como a malária ou a tuberculose, continuam causando estragos. Humphrey também havia descrito para o final do século um mundo em que ‘‘os defeitos hereditários seriam corrigidos graças a uma modificação da química genética’’. Nesse aspecto, e apesar da terapia genética continuar sendo uma ciência controvertida e ainda em etapa experimental, esta permitiu tratar algumas doenças genéticas como o déficit imunológico combinado a um déficit glandular (DCIS). Entretanto, ainda se está longe da realidade antecipada pelo vice-presidente dos Estados Unidos. A sociedade Xerox, por outro lado, errou feio quando previu, em 1969, em seu informe Xerox Corporation Forecast, que no ano 2000 ‘‘as pessoas viajariam em espécies de discos voadores de luxo, com manipulação magnética, parecidos com mísseis teleguiados’’. Nada mais distante da realidade. O pensador Herman Kahn, que imaginou uma sociedade de ócio, previu que os americanos trabalhariam menos, apenas 1.100 horas por ano. No entanto, os americanos jamais trabalharam tanto: 1.905 horas por ano em 1993, ou seja, 100 horas a mais do que em 1976.
Em 1967, o descobridor do plutônio e Prêmio Nobel de Química, Glenn Seaborg, imaginava um mundo em que ‘‘pequenos consoles informáticos pessoais estarão conectados via uma ampla rede de centrais informáticas, que fornecerão uma ajuda ao orçamento familiar, o cálculo dos impostos, o trabalho escolar, o planejamento das compras, as transações bancárias e o crédito, a biblioteca e as fontes de referência, as compras e encomendas por correio’’. Ou seja, algo muito parecido com a Internet e o comércio eletrônico. Outro célebre autor de ficção científica, Arthur Clarke, previa em 1967 a criação de uma ‘‘biblioteca mundial’’. Algo novamente muito parecido com a World Wide Web. Mas o autor de ‘‘2001, uma Odisséia no Espaço’’ previa para o final do século a ‘‘colonização dos planetas’’. Mas as dificuldades orçamentárias e a recessão da década de 60 acabaram frustrando esta fantástica profecia.
A citação destas previsões feitas nos últimos 40 anos serve para evidenciar que não existe nada mais difícil do que prever o futuro. Entre os poucos acertos, há muitos e imensos erros. A explicação para isto, eventualmente, está na afirmativa de Edward Cornish, presidente do organismo de previsão futurista World Future Society, segundo quem ‘‘os futurólogos não pretendem saber o que vai acontecer no futuro porque o futuro depende muito do que nós, humanos, decidimos fazer’’. É importante ter isto em mente na véspera da entrada no ano 2000. É indubitável que o mundo mudou de modo verdadeiramente radical nos últimos 100 anos. Em realidade, as modificações ocorridas a partir do fim da II Guerra Mundial, com enorme influência dos avanços atingidos durante a corrida espacial, são por si impressionantes. O mundo do ano 2000 é muito diferente do que aquele de 1900. E vai mudar ainda mais, sempre em função do que o ser humano queira fazer, porque ele é o grande agente das conquistas da humanidade.

mockup