Juros em queda, inflação igualmente abaixo do projetado e temido. Este é um quadro que se descortina no início do segundo trimestre e que contraria inclusive as previsões que vinham sendo feitas logo em seguida à desvalorização do real e à alta desmedida do dólar. No primeiro momento, houve o temor de que a escalada inflacionária estava de volta, o que provocou, até, o lançamento de debates em torno da retomada da indexação, notadamente em relação aos salários. No meio disso tudo, até mesmo a questão do novo salário mínimo, que deveria entrar em debate no final deste mês, foi colocada, provocando inquietação e celeuma, além de servir para a atuação dos demagogos que não perdem a oportunidade para posar de interessados nas dificuldades do sofrido povo brasileiro. As previsões de uma inflação pela casa dos 15%, este ano, igualmente produziram temores, pelas consequências que acarretaria após um ano de índice baixo.
A situação, porém, modificou-se. Com base no comportamento dos preços no primeiro trimestre e nas sinalizações de melhora da economia, o coordenador da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe), da Universidade de São Paulo, Heron do Carmo, prevê para maio uma taxa de inflação próxima da de abril, prevista para algo entre 1% e 1,5%, além de uma queda significativa em junho. Para a segunda metade do ano, Heron do Carmo estima que a inflação mensal deverá ficar bem próximo de zero. Em seu entendimento, não há mais espaço para aumentos significativos de preços, já que a maior parte da desvalorização cambial foi repassada em fevereiro. Além disso, lembra o economista, os preços das commodities agrícolas - café e soja, por exemplo - sofreram queda de preços no mercado internacional, o que propiciará mais vantagens aos supermercados na negociação com os fornecedores. Até mesmo em relação ao ano, a Fipe reviu suas previsões: inicialmente, projetava-se uma taxa em torno de 12% em 99; já agora, a perspectiva é que a inflação do ano fique abaixo dos 10%. A aprovação da CPMF, pelo Congresso, a transição no Banco Central e a aprovação do acordo com o FMI produziram, no entendimento de Heron do Carmo, condições melhores do que as previstas. Antecipa até que neste quadro o dólar ficará entre R$ 1,70 e R$ 1,80, um patamar em que o câmbio não afetará a inflação e continuará remunerando a contento as exportações.
Trata-se de um quadro inegavelmente diferente do que se descortinava há um ou dois meses, quando os catastrofistas antecipavam o apocalipse sem remissão. E embora, conforme a Fipe destaca, tenha havido alguns fatos importantes no período, servindo para ajudar a modificar as perspectivas, o certo é que, em seguida à desvalorização do real, houve uma substancial ação especulativa, tendente mesmo a desestabilizar ao máximo a situação interna. Ademais, há a considerar que alguns componentes da realidade nacional também ajudam a evitar a retomada da inflação, com todos os seus nefastos efeitos. A situação recessiva existente no País, o desemprego, ainda não resolvido, a redução no poder aquisitivo da maioria são fatores que pesam. A queda no volume dos negócios, provocada até pela falta de meios de ponderável parte da população, serviu para frear a especulação e reduzir o abuso.
O governo federal ganha, com isso, novo alento para dar sequência à sua parte neste programa de estabilização que continua a ser fundamental para a retomada do desenvolvimento sustentado, isto é, sem inflação. Uma projeção de inflação mais baixa reduz eventuais pressões. Entretanto, é necessário que haja, neste momento, uma sensibilização por parte dos que coordenam a política econômica no sentido de manter uma política que abra perspectivas melhores de vida para o povo.

mockup