Editorial - Previsão possível
Um dos itens do novo acordo firmado entre o governo brasileiro e o FMI prevê, para este ano, um superávit na balança comercial da ordem de US$ 11 bilhões. Analistas, debruçados sobre os numerosos tópicos do documento, consideram essa projeção impossível. Outros, avaliando globalmente o acordo, continuam a produzir vaticínios pessimistas, apontando para a queda do PIB como indicadora efetiva de recessão, antecipando mais desemprego em um quadro de inflação, o que caracterizaria de novo a estagflação, um dos mais terríveis males que uma sociedade pode enfrentar. De um como de outro modo, os arautos do apocalipse continuam em franca atividade, com a despreocupação natural de quem persiste na antiga disposição de projetar o pior para tirar vantagens das dificuldades gerais.
Ocorre que a simples previsão relativa ao superávit comercial, ainda mais porque fundamentada num aumento das exportações, aponta para uma situação oposta à apontada pelos adeptos da sinistrose. Para ter um superávit na balança, para aumentar a exportação, ainda mais quando o valor do real caiu em face do dólar, é imprescindível um aumento na produção. Para que isso ocorra, é necessário que haja apoio e incentivo às áreas mais importantes, notadamente no campo. E esse crescimento produz, natural e infalivelmente, aumento na oferta de trabalho e melhoria na qualidade de vida de um imenso contingente da população. Isso pode representar uma mudança concreta no próprio quadro da vida brasileira, com um retorno ao campo, uma redução na aglomeração urbana que marcou as últimas décadas.
Parece ilusório ou uma espécie de saudosismo. Mas não é. Já se pode observar, até mesmo como resultado da retração da indústria nos últimos anos, uma mudança no fluxo migratório no País. Muita gente está deixando os maiores centros, que incharam e se tornaram focos de miséria e violência. Na medida em que houver um apoio concreto ao campo, quando a oferta de trabalho se tornar clara, essa tendência vai se tornar cada vez maior. Certamente, é necessário que se adotem, rapidamente, medidas para estimular a mudança, a fim de tornar concreta a possibilidade do aumento das exportações, o que incluiria até eventuais alterações na legislação que rege as relações trabalhistas no campo. Lembre-se que foi a atual lei uma das causas do esvaziamento da roça e do inchaço das cidades.
A meta que prevê um aumento de 10,52% nas exportações e uma queda de 20,93% nas importações é factível. A mudança na situação cambial serve para tornar o produto brasileiro mais competitivo no mercado internacional, ao tempo em que torna, naturalmente, menos atraente a importação. Não se pode esquecer que nos últimos anos, com a abertura plena das importações, formou-se um quadro que lembrou os primeiros tempos da colonização na América, quando os europeus traziam bugigangas para trocar por ouro e pedras dos índios. Os brasileiros importaram muita porcaria, aumentando a pauta de compras, o que não só tornava maior o déficit na balança comercial como também desestimulava a produção interna. Ainda é preciso importar, até porque existe uma exigência de reciprocidade. Mas a simples eliminação de uma série de supérfluos já muda bastante o quadro.
Um efetivo apoio à produção, ao lado de uma política de incentivo à exportação, abre condições para que se consiga atingir o patamar previsto no acordo com o FMI. Paralelamente, será possível restaurar a condição do campo e partir para uma política de mais produção - o único caminho para que o País vença a crise e atinja o patamar de desenvolvimento que já deveria ter alcançado há muito tempo.





