Editorial - Previsão descartável
Na linha mais fácil, adotada por muitos, a Organização Internacional do Trabalho também resolve fazer suas previsões alarmistas, antecipando que o desemprego vai chegar a 9,5% na América Latina. O Brasil, segundo a OIT, terá taxa quase igual, 9%, mas apresentará uma retração de até 2% do PIB. Não é, de modo algum, uma previsão atraente. Entretanto, é fora de dúvida que esta projeção nada tem de científico ou de real. Como acontece com boa parte dos que se debruçam sobre os fatos e procuram antecipar o futuro, os especialistas da OIT adotaram a linha que parecia estar mais à mão, prevendo um quadro bem negativo. A impressão é a de que existe até medo de prever situações menos duras para fugir a rótulos sobre otimismo excessivo.
Ocorre, porém, que este tipo de previsão traz em si mesmo um germe negativo. Infelizmente, prevalece ainda em muitas pessoas um certo senso fatalista que se alimenta de predições negativas e que leva o cidadão a uma postura de conformismo diante das dificuldades, como se os problemas fossem inevitáveis e sem solução. Ora, a realidade é diferente. Existem, de fato, condições adversas, decorrentes até de erros que vêm sendo cometidos há tempos, tanto aqui quanto no resto do mundo. A questão é o modo como se há de enfrentar as dificuldades. E é fora de dúvida que os mesmos elementos que fornecem a base para as projeções negativas também podem dar diretrizes para uma reversão de tais expectativas, principalmente em países como o Brasil, que tem um potencial imenso a ser explorado.
O que é básico para que a previsão da OIT não se concretize no Brasil é que haja de fato uma disposição positiva para enfrentar as atuais dificuldades. Falta, inicialmente, que os governantes percebam que estão errados até mesmo no modo como pretendem combater aquele que, sem dúvida, é o mais sério entrave, o déficit público. Basta observar o problema que vai surgir com o fim - pelo menos por algum tempo - da CPMF. A fim de manter a receita, o governo investe sobre o IOF. A idéia, errada, é a de que para manter a arrecadação é preciso criar ou aumentar impostos. Na verdade, neste momento, o mais adequado seria é reduzir a carga tributária para fomentar a atividade econômica, conseguindo com isso, naturalmente, maior arrecadação.
O setor público, infelizmente, foge desta solução (que os países com economia sólida já descobriram há tempos) e continua a insistir em aumentar a carga tributária. É uma postura que desestimula a atividade produtiva e, por extensão, em um quadro recessivo, aumenta o desemprego. Na falta de um apoio maior do governo, o setor privado faz o que pode. E tem conseguido superar as dificuldades com criatividade e coragem. Nota-se uma mudança, ainda pequena, na mentalidade não só do empresário, mas do trabalhador. Busca-se o aprimoramento profissional através do retreinamento e até da mudança nos projetos de vida para conseguir meios de sobrevivência. E este é também um dos caminhos. É preciso ampliar a mentalidade. Se não há emprego em uma área, há que buscar outras.
O que é necessário é rejeitar um tipo de projeção que apenas pode produzir desânimo, sem criar soluções. É preciso insistir junto ao governo, como têm feito os meios empresariais e sindicais, para mudar sua política, reduzir a taxa de juros e criar condições capazes de estimular o investimento produtivo. Paralelamente, o cidadão comum tem que buscar caminhos e alternativas, no campo em que se formou ou em outros, não aceitando passivamente o desemprego e, até como consequência, a miséria.





