Pretensões hegemônicas
Não fosse a seriedade com que a questão foi apresentada, a sugestão do embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, no sentido da inclusão do País no G-8, grupo que reúne os sete países mais industrializados do mundo e a Rússia, poderia ser interpretada como uma piada de extremo mau gosto. Comentando editorial de um jornal de Londres, no qual o periódico defendeu um convite à China para participar deste seleto grupo de nações, o diplomata brasileiro assinala que tanto a Rússia como a China são grandes países, mas enfatiza que foi desconsiderada a posição do Brasil, lembrando que se trata de uma das maiores economias emergentes, contando ainda com a quinta maior população do mundo.
Barbosa ressalta que o PIB do Brasil é quase duas vezes a soma dos PIBs da Rússia e Índia, lembra que o País é o terceiro maior recipiente de investimentos estrangeiros diretos e o maior no que se refere a investimentos norte-americanos em países em desenvolvimento, incluindo-se o México. Com uma economia de mercado, instituições democráticas, tradições e valores culturais ocidentais, bem como potencial econômico e uma respeitável folha de contribuições à segurança e paz mundial, o Brasil é, no entender do embaixador, um candidato qualificado para mecanismos de coordenação como o G-8.
É inegável o peso econômico do Brasil. Do mesmo modo, não se desconhece o potencial do País, que tem quase todas as condições para se converter em uma potência mundial. Falta porém, para que isto ocorra, uma condição fundamental: a de que seu contingente populacional deixe de ser apenas um número nas estatísticas para se converter em um fator real de crescimento. Atualmente, apesar de se poder considerar que houve mudança positiva no quadro nacional, notadamente em consequência dos efeitos positivos do plano de estabilização econômica, ainda há milhões de pessoas vivendo na faixa da miséria. Estatisticamente, o Brasil conta com mais de 160 milhões de habitantes. Ponderável parcela deste total, porém, se encontra em precárias condições.
Esta realidade provocou inclusive, ao tempo em que se cantava em prosa e verso o fato de o Brasil se situar no oitavo lugar entre as potências econômicas do mundo, a criação de uma nova designação para o País: a ‘Belíndia’. Ou seja, do ponto de vista da economia, o Brasil tinha o nível de uma Bélgica, mas sob a perspectiva da vida de seu povo, era uma Índia. Este violento contraste continua a existir. Tem razão o embaixador do Brasil quando fala da situação econômica do País. Falta-lhe porém observar a realidade como um todo e perceber que para que se considere um país efetivamente uma potência, deve-se considerar também as condições de vida de seu povo.
Falta ao diplomata brasileiro a percepção efetiva não só da realidade do País, do qual está um pouco afastado devido suas atribuições, mas sensibilidade para entender que mais importante que participar deste ou daquele bloco é ter uma população adequadamente atendida em suas necessidades básicas. O Brasil, historicamente, não tem pretensões hegemônicas no mundo, nem mesmo no continente. Nem precisa disto. O que os governantes precisam fazer é voltar as preocupações para a qualidade de vida dos brasileiros, realizando a obrigação básica que é a do resgate da dignidade de milhões de pessoas, ainda vivendo na faixa da mais absoluta miséria. Quando conseguir atingir este objetivo, o País não precisará reivindicar posições em grupos mundiais: vai conquistá-las naturalmente.

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