Editorial - Presidente itinerante
Presidente itinerante
Primeiro, foi de Havana. Diretamente da capital cubana, o presidente Fernando Henrique Cardoso endereçou apelo aos consumidores brasileiros para que lutem contra a especulação e o abuso no reajuste de preços. De lá mesmo, em outra mensagem, o presidente fez pesada crítica ao empresariado nacional, responsabilizando-o por aumentos nos preços que, segundo seu entendimento, são incabíveis. Agora, de Roma, para onde foi depois de terminar sua viagem pelo Caribe, FHC contestou as notícias sobre as ameaças que teria feito aos empresários, enfatizando apenas que não vê motivo para a sequência de altas. Na mesma oportunidade, tentou rebater as críticas às altas das tarifas públicas, explicando que isto não era mais da alçada do governo, mas das agências que cuidam do assunto e que os reajustes decorriam de contratos. Não aprofundou a questão, principalmente sobre o fato de que os citados contratos foram formulados pelo próprio governo, que é assim o responsável pelas suas consequências.
De qualquer modo, é fantástico perceber que, neste final de milênio, Fernando Henrique Cardoso inaugura o estilo de presidência globalizada, mandando recados, ordens, críticas, ameaças e outras mensagens pelas vias mais modernas, usando afinal o que de mais avançado existe na tecnologia e mostrando que não precisa ficar preso à monótona paisagem de Brasília, ou aos eventualmente já cansativos panoramas do Brasil. Nem mesmo Bill Clinton, presidente da maior potência do mundo, age deste modo. É um presidente mais doméstico, como a maioria de seus antecessores. Espera-se apenas que o atual Fernando, que deve ter um encontro com Clinton, em Florença, não imite seu xará (o Collor de Mello) que serviu de garoto de recados quando viajou, depois de ser eleito, por Estados Unidos e União Soviética, tendo, segundo disse, levado mensagem do presidente de um para o primeiro-ministro de outro país.
É verdade que o desenvolvimento atingido pelo Homem neste final de milênio é tão impressionante que algumas pessoas podem até se sentir com o dom da onipresença. Os especuladores internacionais sabem disto muito bem. Não precisam deixar os paraísos onde vivem para agitar mercados do mundo inteiro. Com apenas o toque de um dedo no teclado de um supercomputador, eles movimentam milhões de dólares, provocando danos quando retiram seus fundos de um país, causando euforia ao jogá-los em outro, ganhando sempre e cada vez mais, sem a necessidade da presença física em nenhuma atulhada e cansativa Bolsa de Valores.
Aparentemente, Fernando Henrique Cardoso resolveu adotar o novo estilo, evidenciando afinal que embora o Brasil ainda seja cotado entre os países não desenvolvidos, existem aqui condições técnicas que permitem ao presidente governar (ou, ao menos, mandar recados ou e-mail) de qualquer lugar em que esteja. E sem maiores preocupações, porque se seu carro é furtado, a Polícia o recupera e se os sem-terra invadirem propriedade sua, certamente a PM vai colocá-los para fora.
Com tantos problemas no País, é louvável que quem o governa não fique só em Brasília, mas ande por toda parte, ouça o grito dos que são furtados ou assaltados, viva o drama dos sem-terra e as dificuldades dos produtores rurais, vivencie a situação dos desempregados ou a dor dos que sofrem e morrem em filas diante de hospitais públicos. E, claro, resolva os problemas. O Brasil bem que precisa de um presidente assim, onipresente, mas em seu território.





