O apelo do presidente Fernando Henrique Cardoso aos empresários no sentido de que façam um esforço para evitar demissões, soa, no mínimo, patético. Se o objetivo do chefe do governo era demonstrar preocupação com o problema que, hoje, sem dúvida, é o mais sério que o país enfrenta (e nem precisa fazer pesquisa para perceber isto), errou o alvo porque evidenciou desconhecimento sobre a realidade do mercado e, principalmente, da situação do emprego no Brasil. Mais grave ainda: deu a impressão de querer transferir a responsabilidade pela questão ao empresariado, postura sem dúvida fácil, mas que, especialmente nos dias que correm, é errônea.
Quando, há alguns dias, anunciou aumento ao funcionalismo federal, atendendo decisão da Justiça, o presidente já deu mostras de falta de percepção do problema administrativo, adotando a postura simplista dos políticos que transformam o Estado em um pai-patrão, sem maiores responsabilidades. De fato, o funcionalismo, arrochado há anos, merece reajuste. Precisa de aumento. Mas o Estado-patrão não pode agir de modo tão irresponsável, prometer salário maior sem efetiva provisão de receita. Como patrão, o governo deveria agir de modo mais racional e efetivo, até porque está sujeito às mesmas leis de mercado que regem a economia. Se não tem receita, não pode pagar salários. Então, precisa administrar a situação.
Curiosamente, o Executivo tem dado mostras de perceber a realidade da situação em sua luta pela reforma administrativa, visando principalmente acabar com a estabilidade do funcionalismo. Quer dizer, o governo percebe que precisa ter liberdade também para demitir, se for necessário. Não é a melhor solução, mas muitas vezes é a alternativa que resta até para enfrentar as dificuldades econômicas do momento. No caso da iniciativa privada, a situação é ainda mais séria porque o empresário não conta com os ‘jeitinhos’ do administrador público para driblar os déficits, sempre jogados nas costas dos contribuintes.
O sr. Fernando Henrique Cardoso passa a impressão de que esqueceu que é o presidente da República, lembrando apenas que é candidato à reeleição. Afinal, deve saber que os mais graves problemas do empresariado para criar empregos, dar salários melhores e aplicar em investimentos produtivos surgem em função de uma inadequada política de governo. Para começar, há a legislação trabalhista, que cria tantos e tão complexos encargos que qualquer empresário capaz tem de buscar fórmulas para produzir mais com menos funcionários. Há décadas se observa que o peso dos encargos sobre a folha de pagamento constitui entrave terrível para a geração de empregos, mas os sucessivos governos não têm coragem para enfrentar este desafio. Ademais, com os juros ainda em nível bárbaro, é difícil pensar em investimentos produtivos. A ciranda financeira foi, sem dúvida, desativada, mas a especulação continua e chega a ser temerária a intenção de investir na produção, devido à falta de apoio oficial.
O presidente já poderia ter tomado muitas providências para enfrentar o desemprego, que era previsível, e não apenas por causa da crise na Ásia. Até agora, a única coisa nova feita foi a lei que permitiu o contrato de trabalho temporário. Pouco, em face das necessidades. Sabe-se, naturalmente, que com o Congresso atual (ainda mais agora, praticamente em recesso até as eleições) será difícil aprovar mudanças. Mas se o Executivo tem usado (e abusado) das Medidas Provisórias, bem poderia usar algo do tipo, agora, produzindo melhores condições e estímulos a uma política de empregos. Isto funcionaria melhor que o patético apelo feito pelo presidente-candidato.

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