O pacote de novembro, emitido pelo Governo como, segundo a justificativa, proteção ao real diante da crise que afligia as Bolsas de Valores em praticamente todo o mundo, restaurou, entre tantas reações, um certo temor junto à população. Vale recordar que desde o lançamento do plano de estabilização da moeda, que aconteceu com a criação da URV, os brasileiros se sentiram mais tranquilos. A URV significou uma espécie de indexação geral e completa, a abrir caminho para a desindexação. Ao contrário dos programas anteriores - a partir do Plano Cruzado - não houve surpresas, choques, mudanças inesperadas ou abruptas, sustos ou temores. O Governo criou a URV, foi indexando tudo, anunciou antecipadamente o lançamento da nova moeda e, quando chegou o momento, o real foi lançado, sem choques ou segredos. Tudo feito às claras, algo diferente de tudo quanto havia acontecido antes. E com resultados que foram imediatamente sentidos.
De então até novembro do ano passado, apesar de alguns boatos (a central de boatos, infelizmente, sempre pronta a tentar provocar agitação no mercado e junto ao povo, jamais deixou de funcionar) todas as dificuldades enfrentadas pelo plano de estabilização vinham sendo resolvidas também sem sobressaltos ou agitação. As autoridades responsáveis pelo acompanhamento do programa mostravam atenção e cuidado, adotando as medidas necessárias em cada caso, provocando algumas reações que, porém, não abalavam o panorama de modo pleno. Entretanto, em novembro, em meio à agitação surgida com os abalos nas Bolsas de Valores, principalmente na Ásia, o Governo brasileiro lançou um pacote, com 51 medidas, causando surpresa e temor. Apesar das indicações feitas pelos responsáveis, segundo quem as medidas visavam evitar consequências desastrosas, podendo ser consideradas preventivas, é certo que elas trouxeram de volta uma natural preocupação com os rumos da própria economia nacional.
Diante deste quadro, a agitação que volta a se fazer sentir na Ásia provoca natural preocupação que se agrava com as previsões do economista norte-americano Albert Fishlow, de que o real sofrerá um ataque especulativo em duas ou três semanas, decorrente da crise na Indonésia. Segundo Fishlow, assim que a situação na Indonésia se acalmar, com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), os especuladores cairão sobre Hong Kong e, no passo seguinte, sobre o Brasil. A este respeito, o gerente de macroeconomia do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fabio Giambiagi, assinala que é preciso conservar o sangue frio, pois a situação é difícil. Mas ele considera temerário fazer previsões categóricas demais quanto a um ataque ao real, ainda mais apontando datas para o ataque. Giambiagi reconhece ser ‘‘público e notório’’ que o Brasil pode ter problemas diante da situação externa, mas entende que não há elementos para se dizer que isso necessariamente vai acontecer e que será em duas ou três semanas.
Por seu turno, em entrevista concedida ontem a uma emissora de rádio, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse que o Brasil está preparado para enfrentar um novo ataque ao real. ‘‘E em muito melhores condições do que no passado, devido às medidas tomadas pelo Banco Central e o conjunto de medidas na área fiscal’’. Para o ministro, a melhor resposta que o País pode dar aos investidores internacionais é a continuidade e o aprofundamento do processo de reformas, ‘‘que já vinha tendo lugar e que nós resolvemos acelerar’’. Isso, acredita Malan, deve tranquilizar o País, que está em condições de superar este novo desafio sem maiores traumas. É, aliás, o que o povo espera para continuar sua parte neste importante processo.

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