Editorial - Preocupação mundial
O Fundo das Nações Unidas para a População comemorou ontem o Dia Mundial da População, e antecipou que em junho de 1999 a Terra estará com 6 bilhões de pessoas. De forma simbólica, a ONU convocará os Estados-membros a Nova York, de 30 de junho a 2 de julho do próximo ano, para um balanço da conferência do Cairo de 1994 sobre população e desenvolvimento. Naquela oportunidade, 182 Estados se comprometeram a conceder US$ 17 bilhões anuais em torno do ano 2000 para financiar as políticas de população (planejamento familiar e saúde materna). Dois terços devem ser providos pelos países em desenvolvimento e um terço pelos países ricos. A organização francesa Equilíbrios e Populações assinalou que os países pobres já reuniram 75% de suas contribuições em 1995, enquanto os países ricos, com apenas US$ 2 bilhões dos 5,7 bilhões prometidos, terão dificuldades para manter suas promessas. As políticas de população tendem a permitir que todos os casais possam escolher livremente o número de filhos, o que só é possível atualmente para 50% dos que vivem no Terceiro Mundo.
A Terra precisou de vários milhões de anos para chegar aos 3 bilhões de habitantes em 1957, mas levou só 40 anos para dobrar esta cifra. E mesmo os que não apreciam previsões catastróficas acreditam que este total poderá ser duplicado rapidamente. As projeções da ONU prevêem entre 7,7 e 10,6 bilhões de pessoas em 2050. A preocupação maior de todos quantos se debruçam sobre o problema é saber qual a capacidade do planeta em relação à população, levando em conta as necessidades mínimas de água, ar e, naturalmente, comida.
Os demógrafos estimam que a cada ano, para 140 milhões de nascimentos, 50 milhões de mulheres grávidas abortam. Uma recente análise da Fundação Rockefeller, publicada na França pela Equilíbrios e Populações, explica que, ao ritmo de três nascimentos por segundo, o planeta conta com 81 milhões de habitantes a mais todos os anos. Bem perto do ano 2000, o planeta deverá ter 800 milhões de jovens de 13 a 19 anos, a maior geração de jovens que jamais existiu. É esta fecundidade - a dos jovens que vivem em sua maioria nos países em desenvolvimento - que determinará o futuro planetário, já que 93% do crescimento demográfico se operam nestes países.
Outro sério problema diz respeito à diferença entre os percentuais de natalidade nas diferentes regiões da Terra. É na África que o crescimento da população é mais veloz: a fecundidade supera seis filhos por mulher na Nigéria, Congo, Uganda, Etiópia ou Somália, e trinta países africanos vão dobrar sua população em 25 anos. Já nos países desenvolvidos da Europa, a situação é diferente. Alemanha e França, entre outros, estão registrando índices zero ou negativos de crescimento populacional, o que cria uma nova e complicada realidade: aumenta o número de idosos, diminui o de crianças e adolescentes. Mudam, sem dúvida, as necessidades, mas as perspectivas de médio e principalmente longo prazo são complexas.
De fato, esta diferença provoca problemas os mais variados: os que nascem nos países mais pobres e cada vez mais populosos tentam fugir de uma situação de dificuldade, buscando a sorte nas nações mais ricas. Cresce a população imigrante pela Europa e isto já está provocando o ressurgimento de movimentos radicais de extrema direita. O racismo se torna mais grave, ressurgem as perseguições, não é descartável o temor de um extremismo político, com o surgimento de líderes que centram suas campanhas em ideais xenófobos. É sem dúvida um dos mais graves problemas de médio prazo para o mundo, o que justifica a preocupação da ONU e os esforços para levar seus membros a refletir a respeito.





