Editorial - Preocupação comum
Às vésperas de um novo milênio, o Papa João Paulo II, na mensagem divulgada domingo, durante o último Angelus de 1997, mostrou-se preocupado com a família, que é, segundo assinalou, o fundamento da salvaguarda de uma sociedade livre e solidária de verdade. Em sua homilia, o Papa denunciou os ataques que minam a coesão das famílias, citando textualmente o individualismo, o aborto, a eutanásia, a miséria, o desemprego e a falta de moradia. Uma mentalidade que desfigura a fisionomia da família e seu papel na sociedade é uma ameaça ainda mais grave que os ataques que minam sua coesão, destacou.
Esta preocupação de João Paulo II pode parecer a alguns deslocada neste momento de transição que o mundo vive. Todavia, é imperioso aprofundar mais a análise para perceber que, de fato, a mensagem do Papa aborda o tema fundamental deste final de século. A família constituída com base, principalmente, nos ensinamentos cristãos, representa inegavelmente um fator de vital importância para o próprio equilíbrio social. Ademais, é válido observar que a preocupação do Sumo Pontífice da Igreja Católica não se baseia apenas em fatores religiosos, mas vai além ao considerar a miséria, o desemprego, a falta de moradia como fatores sérios contra a estrutura familiar. Tem-se aí uma preocupação mais ampla, considerando o ser humano no seu todo, enfatizando a importância mesmo de uma situação material digna como suporte para a realização efetiva do homem sobre a face da Terra.
Bem observada, esta colocação do Papa a respeito da família, de sua importância e da necessidade de se valorizá-la deveria ser a preocupação de todos, independente de religião, nacionalidade ou o que seja. Pois é inquestionável que, se não houver a plena valorização do ser humano, o atendimento às suas necessidades básicas, a preocupação real com a dignidade para a vida, o progresso que se obtenha, a evolução que possa ser atingida, nada valerá a pena. O quadro que se tem no mundo, neste fim de ano - e, naturalmente, neste final de século - é preocupante. Nem as nações chamadas ricas e menos ainda as pobres conseguiram resolver o problema básico que é o de dar aos seres humanos uma vida nos padrões que a dignidade humana reclama. Não se trata de riquezas, de supérfluos, mas do que é necessário: o trabalho, a moradia, a educação, a saúde, o conforto mínimo a que cada ser humano, pelo simples fato de existir, tem direito.
O interesse efetivo em atender às necessidades humanas é o que, precisamente, tem faltado à grande maioria dos projetos relativos ao crescimento econômico. E é tolice (ou mentira) ponderar que o desenvolvimento global é incompatível com a preocupação efetiva em relação aos homens. Pois, na verdade, o ser humano está na base de tudo, é o início e deveria ser o fim dos projetos e trabalhos que se realiza. A falta de preocupação dos governantes para com a situação do seu povo representa o grande problema deste tempo. E o reclamo - do Papa como de qualquer pessoa que se preocupe com a situação do homem sobre a face da Terra - é precisamente o de se restabelecer o interesse com o bem-estar das pessoas, das famílias, de todos quantos representam, de fato, a base da criação.
O desafio que se coloca hoje aos que governam o mundo é precisamente este: o de perceber que não é possível sequer a existência sobre a Terra se não houver uma legítima e concreta disposição em garantir aos seres humanos condições dignas de vida. Para o Papa, esta forma de agir destrói a família, base da sociedade. Para qualquer pessoa, este tipo de procedimento constitui um fator negativo a comprometer inclusive o destino do homem.





