Editorial - Preocupação com a água
Durante milênios, o homem se preocupou com muita coisa ligada à sua sobrevivência no planeta. Na verdade, o bicho homem parecia inferiorizado nesta luta, destituído de certas proteções que a natureza deu a outros animais. O que valeu ao autodenominado rei da criação foi a inteligência que serviu para dar-lhe condições de superar os outros animais, de enfrentar as adversidades climáticas e se impor entre todos os seres existentes. Em sua ação predatória tem, inclusive, acabado com muitas espécies, dentro mesmo de um princípio de quase plena falta de respeito à natureza e a tudo que o cerca. Mas foi bem recentemente que o ser humano começou a perceber que a atividade destruidora podia também pôr em risco sua própria existência. Elementos vitais, como ar e água, raramente foram considerados até que o homem começou a notar que estava poluindo a ambos e criando condições perigosas para sua continuidade na Terra.
Este final de século e de milênio tem sido marcado por uma preocupação maior em relação à destruição do ambiente produzida pelo homem. Ainda é possível reverter a situação, através de um trabalho consciente e bem dirigido - seja no que diz respeito à preservação do ar, seja no que tange à questão hídrica. Esta semana, está se realizando em Foz do Iguaçu Seminário Internacional de Estudos sobre Gestão de Recursos Hídricos, com debates aprofundados sobre a situação brasileira. É a parte nacional de um amplo estudo que vem sendo desenvolvido em vários pontos do mundo, com o apoio da ONU, visando analisar a questão e subsidiar mudanças que afastem o perigo e criem condições para a sobrevivência humana através o uso melhor da água.
Neste quadro, anuncia-se inclusive a formulação de uma Carta social da água, que será submetida, no ano 2000, à comunidade internacional, e que incorpora um capítulo social, aspecto geralmente esquecido atualmente na administração da água no mundo. Discutida no Cairo pela Comissão Mundial sobre a Água para o século XXI, esta Carta recomenda uma participação mais direta e ativa dos usuários e cidadãos na administração da água. O projeto foi elaborado na França em 1993 pela Academia da Água, associação de especialistas presidida pelo prêmio Nobel de Medicina, Jean Dausset, em colaboração com o Banco Mundial, cujo vice-presidente, Ismail Serageldin, dirige a Comissão da Água.
A Carta é constituída de uma série de recomendações aos dirigentes políticos e econômicos do mundo e seu objetivo é aplicar uma administração da água mais democrática e melhor adaptada às necessidades e possibilidades técnicas e econômicas das populações envolvidas. O documento será concluído no final de 1999 ou início do ano 2000, durante um simpósio que será realizado em Paris. Posteriormente, será submetida ao segundo Foro Mundial da Água, previsto para março do ano 2000 em Haia (Holanda). Até então, será alvo de amplas consultas para enriquecer suas propostas e ter em conta o maior número possível de opiniões e testemunhos.
O seminário que se desenvolve em Foz, e que termina amanhã, representa um fator positivo nesta questão. A ONU indica que no começo do próximo século, um terço dos países do mundo sofrerá com a escassez de água. O Brasil pode e deve se conscientizar deste problema e adotar medidas coerentes e amplas para enfrentar o desafio. A realização do Seminário em Foz mostra uma preocupação real. Mas é certo que este deve ser o primeiro entre muitos passos vitais para que o Brasil possa enfrentar este e outros desafios do terceiro milênio com inteligência e objetividade.





