Editorial - Preocupação
A alta dos derivados do petróleo - gasolina, gás de cozinha e diesel - ameaça provocar um efeito cascata perigoso para o projeto de estabilização da economia. A inflação brasileira está atualmente em níveis civilizados, sendo até possível que, pela primeira vez na história, se feche um período anual com taxa negativa. O resultado vem sendo conseguido apesar de o governo não ter realizado plenamente a parte que lhe cabe. Deve-se creditar ponderável parcela do sucesso na luta contra a inflação ao esforço do povo. Esse resultado, igualmente, decorre de outro aspecto negativo, que não pode ser desconsiderado: a recessão. É certo que o Brasil já enfrentou situação pior, com uma inflação exacerbada e uma recessão tremenda, produzindo a chamada estagflação, fenômeno nefasto que transtornou a vida dos brasileiros, aumentando a faixa de miséria em que boa parte do povo vivia. Com o Plano Real, houve uma reversão. Um ponderável número de pessoas saiu da miséria absoluta e, pelo menos nos últimos tempos, a esperança ressurgiu para muitos.
Entretanto, as perspectivas já por si complicadas se tornam mais sérias. A alta produzida nos preços pela retirada dos subsídios aos derivados do petróleo está beirando os 10%. E embora seja lícito considerar que a alta não pode, em uma economia equilibrada, representar um repasse idêntico a todos os preços, é certo que haverá uma consequência inflacionária. Os especialistas consideram que, na melhor das hipóteses, a elevação nos preços poderá ter um reflexo final entre 2% e 3% na inflação deste mês. O que é mais do que toda a inflação registrada ao longo dos últimos 11 meses.
O efeito cascata já pode ser percebido pela retomada de esforços, por parte de algumas empresas prestadoras do serviço de transporte coletivo urbano que querem reajuste nas tarifas. O diesel pesa muito em suas planilhas, como, aliás, tem peso elevado, também, sobre o transporte de praticamente tudo no País. Quer dizer: a simples elevação no preço do óleo diesel representa por si um fator relevante na alta geral dos preços. Mais sério ainda é perceber que o reajuste que pode acontecer supera em muito o valor do aumento que aqueles que não perderam o emprego, no último ano, receberam. Com efeito, mesmo diante da inflação baixa, poucas categorias profissionais conseguiram reajustes de salário. Os que tiveram mais sorte, obtiveram algo em torno de 1%. Uma explosão inflacionária de 3%, em uma economia estável, é perigosa e assustadora.
É importante lembrar: nos quatro anos de vigência do programa de estabilização, as autoridades econômicas têm conseguido realizar um competente controle em situações emergenciais. A não-conclusão das reformas estruturais, sem dúvida, tornou as coisas mais difíceis, mas é inegável que houve um acompanhamento inteligente que logrou superar os transtornos que foram surgindo. Neste momento, a ação efetiva do Executivo, principalmente, é ainda mais importante e necessária. Uma vez que a retirada dos subsídios pode ser considerada até essencial no quadro de combate ao déficit público, é exigível que haja medidas em outros pontos da economia para manter o equilíbrio. Uma alternativa natural, inclusive com a capacidade de dar mais sustentação à atividade privada, constitui a manutenção e, se possível, a agilização do processo de redução dos juros. Seria um modo para aliviar um pouco uma economia que está sendo muito pressionada, criando-se condições para superar a recessão e dar uma esperança maior ao assustado povo brasileiro.





