Editorial - Postura desnecessária
A decisão da Companhia Francesa de Seguros de Crédito de Exportação (Coface), órgão do Tesouro francês que garante crédito para exportação, de suspender linhas para o Brasil, antecipando que nem mesmo o novo plano econômico brasileiro vai reduzir a crise que atinge as chamadas nações emergentes, lembra um pouco a história daquele pessimista que, perguntado sobre se havia assistido a determinado filme, respondeu, seco: Não vi e não gostei. Com efeito, é o tipo de atitude que apenas piora as coisas, produzindo mais um fator negativo no momento em que há um sério e amplo esforço objetivando produzir alternativas para superar as atuais dificuldades, ao menos no Brasil. O organismo francês pode ter suas razões, inclusive de segurança, mas sem dúvida a atitude anunciada, depois até de um manifesto-apoio do Governo de Paris ao Brasil, representa um elemento desnecessário nesta já complicada equação. Além de não ajudar, atrapalha e complica.
Infelizmente, porém, não é a única preocupação nacional nesta hora de expectativa. O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, fez eco ontem ao discurso alarmista quando chegou em Porto Alegre para participar da campanha eleitoral de segundo turno ao Governo do Rio Grande do Sul. Disse Lula que a crise econômica está transformando o País em uma panela de pressão já fervendo e que poderá explodir se não houver nenhuma ação política capaz de mostrar que o amanhã será menos tenso para o povo brasileiro. Lula critica o acordo entre o governo brasileiro e o FMI, considerando-o leonino. Só que, pelo menos até agora, ninguém ainda sabe exatamente que tipo de acordo está sendo formulado, ou como será aplicado.
Embora aparentando seguir a mesma linha, ao antecipar graves enfrentamentos sociais no País em 1999 como resultado do acordo com o Fundo Monetário Internacional, o ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro (PT), afirmou que a oposição tem a responsabilidade de colocar a insatisfação popular dentro de canais políticos de contestação ao governo. Isto seria possível com a coesão de suas bancadas no Parlamento e mobilizações sociais reguladas politicamente. Na opinião do candidato petista, as oposições não devem conciliar-se com o governo porque parte dos desempregados, sem-terra e sem-teto se descolaria delas e partiria para uma luta ilegal e inconstitucional. Devemos manter uma oposição frontal ao governo para defender a democracia e sermos coerentes com a grande votação que obtivemos na eleição, destacou.
O posicionamento do líder petista Tarso Genro reflete a verdadeira essência do papel da oposição neste momento da vida pública. Não deve, conforme destacou, se acoplar ao Governo, mas tem de ser o grande canal para a defesa dos que sufragaram os candidatos oposicionistas, oferecendo a eles a alternativa política para a participação no grande debate nacional visando encontrar alternativas para a crise atual. O próprio Executivo, aliás, já antecipou um convite para este diálogo, a fim de que se tenha condições de buscar soluções compatíveis com as necessidades nacionais e dentro do quadro atual da economia no mundo.
A consciência sobre a gravidade da crise que o País enfrenta é importante. Dimensioná-la, porém, de modo alarmista ou antecipar situações sem o embasamento no que será efetivamente tentado é um exercício inútil e perigoso. Nota-se que a autoridade federal vem tratando com firmeza a questão, evitando inclusive pacotes, choques e quejandos. Esta postura é fundamental e deve ser também a da oposição no acompanhamento que faz em defesa de seus eleitores.





