Editorial - População mal distribuída
População mal distribuída
Comentando o novo marco populacional do mundo, que atingiu 6 bilhões de pessoas em outubro do ano passado, o representante do México no Fundo Populacional das Nações Unidas, Rainer Rosenbaum, advertiu que houve um aumento de 1 bilhão de habitantes no planeta em apenas 12 anos e que, do total de nascimentos, cerca de 95% ocorreram nos países mais pobres. Diante desta constatação, o diplomata sugeriu, em entrevista ao jornal mexicano Reforma, que as nações com recursos escassos devem estabelecer políticas sobre a matéria e que os países ricos precisam dar apoio econômico e técnico para tais iniciativas. Rosenbaum expressou também sua preocupação pelo rápido crescimento da população mundial. Segundo ele, cerca de 350 milhões de casais não têm acesso a serviços de planejamento familiar, o que se traduz em 170 milhões de casos de gravidez não desejada por ano e cerca de 70 milhões de abortos. Por outro lado, o jornal cita que países europeus, como Itália e França, que registram baixa taxa de natalidade, podem enfrentar problemas com o envelhecimento de sua população.
Nesse sentido, é interessante observar que as Nações Unidas estão preparando um novo relatório alertando que a Europa pode precisar aceitar muitos mais migrantes nos próximos 50 anos para manter a população e o tamanho da força de trabalho no continente. Joseph Chamie, diretor da Divisão de População da ONU, reconhece que o relatório deve provocar um intenso debate na Europa, que, ao contrário dos EUA, Canadá e Austrália, vem sendo relutante em aceitar ondas de imigrantes para abastecer as necessidades de trabalhadores. Ele lembrou as recentes pesquisas realizadas em países como Suíça, Áustria, França e Alemanha, indicando que muitos eleitores são contra a imigração. Já os políticos temem o desemprego e a má aceitação por parte dos sindicatos em relação ao trabalho mais barato dos imigrantes.
As projeções sobre a população européia indicam que ela vai cair dramaticamente nas próximas cinco décadas, principalmente em razão das baixas taxas de natalidade. A Itália, cuja população atual é de 57 milhões, deve chegar a 2050 com 41 milhões de habitantes. Estimativas preliminares da Divisão de População indicam que o país irá precisar de cerca de 300 mil imigrantes por ano até 2025 para manter sua força de trabalho nos mesmos níveis de 1995.
Inegavelmente, são questões que se relacionam e causam justa preocupação. Existe enorme fosso entre países pobres que apresentam um constante crescimento populacional, apesar das condições precárias de vida na maioria deles e as nações ricas, que conseguem reduzir a população, em função de políticas naturalmente bem orientadas. Paralelamente, há a questão ainda não devidamente observada sobre a capacidade da Terra para esta crescente população. Sob qualquer aspecto, o inédito total de 6 bilhões de habitantes é preocupante.
O que salta aos olhos é que o assunto relativo à população mundial precisa ser estudado e encaminhado sob uma forma global. Ao lado da discussão sobre eventuais políticas de controle da natalidade, há que haver também uma avaliação mais intensa sobre o que ocorre em cada continente e em cada país. Nos últimos anos, tem-se percebido um agravamento nos sentimentos em relação à massa de imigrantes que, contudo, representa uma alternativa para suprir vazios que vão se formando. Sem uma mudança na mentalidade xenófoba de alguns povos e, principalmente, sem a adoção de diretrizes mundiais visando encaminhar adequadamente o problema, o crescimento populacional, aliado à má distribuição de renda e à ocupação irregular da Terra, pode produzir situações explosivas capazes de incendiar o planeta.





