Políticos em fuga
Dando a impressão cada vez maior de que está pretendendo se tornar o maior líder da oposição no Congresso, o presidente do Senado, sr. Antônio Carlos Magalhães, acaba de anunciar que o Legislativo não vai mais aprovar com facilidade as propostas e projetos do Executivo. Paralelamente, lideranças do PMDB, partido que, em tese, faz parte do governo, manifestam satisfação ante a anunciada disposição do Executivo de estabelecer negociações diretas com o Congresso antes de enviar matérias mais ou menos polêmicas, como o da idade mínima para aposentadoria. E outros líderes do PFL enfatizam que esta nova postura do Executivo decorre de uma nova posição do próprio Congresso, que se mostra independente diante do outro Poder.
Em tudo isto, fica muito evidente uma certa tentação dos que sempre se beneficiaram da proximidade com o poder central e que agora, diante da inequívoca queda de popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso, tentam fazer de conta que não têm nada com o Executivo, com medo até de se chamuscar ou sofrer os efeitos desta nova e inconfortável situação vivida pelo chefe do governo. Enquanto isto, a verdadeira oposição, aquela formada pelos partidos que têm mantido posição contrária a FHC desde o primeiro mandato, estimulada por esta defecção dos aliados, se sente fortalecida e segue na pregação de alternativas que colidem com os próprios princípios que regem a vida política. Com isto, aumenta o sentimento de perplexidade da população, insegura não só diante do rumo da economia, mas da própria situação política, transformada em verdadeira balbúrdia. A reforma ministerial, precipitada por este clima, não parece ter atingido o objetivo de fortalecer a base governista no Congresso. E o clima dá a impressão de se estar vivendo não no primeiro semestre de um governo, mas às vésperas de nova eleição.
O mal que os aliados provocam para o governo e o país é muito grave. Naturalmente, não se pode exigir de um político que atue contra os princípios ligados ao interesse do eleitor, que é o responsável por seu mandato. Entretanto, o que se percebe não é a preocupação real com os desacertos do Executivo, mas uma nítida idéia do ‘salve-se quem puder’. O senador Antônio Carlos Magalhães, que nega ter um projeto visando candidatar-se à presidência dentro de três anos, age exatamente de modo contrário, precipitando um esquema que provoca divisões internas em um governo que precisa, agora, de uma base sólida para dar sequência a seus projetos, inclusive porque enfrenta uma crise séria. Membros de outros partidos que formam com o Executivo apresentam por seu turno uma postura igualmente divisionista, deixando o governo em palpos de aranha até para levar adiante as reformas necessárias visando completar o projeto econômico que o sustentou.
A Economist Intelligence Unit (EIU), empresa britânica de análises econômicas ligada à revista The Economist, diz em seu último relatório ‘Global Forecast’, divulgado ontem, que a recessão no Brasil, causada pela desvalorização do real, não será tão acentuada como havia sido previsto alguns meses atrás. Entretanto, a EIU se diz preocupada com as perspectivas de longo prazo da economia brasileira, indicando que sem o temor de uma crise iminente, a possibilidade da adoção de reformas fiscais duradouras diminuíram. É incrível, mas verdadeiro: como a crise não chegou a ser tão terrível quanto se temia, então a pressão por reformas se reduz. E os políticos, como se percebe, resolvem voltar ao discurso demagógico, sem preocupações efetivas com as necessidades de longo prazo de um país que ainda não saiu de uma crise que floresce há décadas.

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