EDITORIAL - Políticos em campanha
Quando se trata de ganhar sem trabalhar, oposição e situação se entendem rapidamente. É o que fica evidente diante do resultado de reunião entre os líderes da oposição com o presidente da Câmara, Michel Temer, no início desta semana, quando o Congresso voltou às atividades depois do recesso (leia-se férias) de julho. No encontro foi acertado que o esforço concentrado no período pré-eleitoral se resumirá a quatro semanas de trabalho nos próximos dois meses. Além desta semana haverá votações na semana que vem, na última semana de agosto e na segunda semana de setembro. Assim, depois de um mês de férias, os parlamentares eleitos pelo povo ganharam mais outro mês, desta feita com a justificativa da necessidade de deslocamentos para as bases em função das eleições municipais. Muitos parlamentares são candidatos a prefeito e os que não vão disputar nada também precisam estar nas bases a fim de apoiar os membros de seus respectivos partidos. Quanto ao motivo pelo qual pediram o voto há dois anos a necessidade de trabalhar pelo povo , isto fica em plano secundário. Seguindo o exemplo que vem de Brasília, também as Assembléias Legislativas preparam calendários especiais para o período, com o mesmo propósito: liberar os deputados-candidatos e os outros para a grande atividade política de outubro.
Houve uma época em que o Legislativo foi efetivamente marginalizado da vida decisória do País. Ao longo do período totalitário, o Brasil teve um Poder Legislativo quase que limitado à tarefa de referendar tudo o que o Executivo determinava. Com a redemocratização e a convocação da Assembléia Constituinte, foi feito um esforço concreto e correto no sentido de resgatar a condição do Legislativo, que hoje tem uma participação mais forte nas atividades de Governo. Ficou apenas como resquício totalitário o discutível instituto das Medidas Provisórias, que permite ao Executivo legislar, o que tem sido feito de modo abusivo. Entretanto, se o Legislativo de fato assumisse seu papel, sem dúvida este absurdo que restou teria caído.
O maior prejudicado nesta situação é o próprio Poder Legislativo, que já não tem uma imagem muito boa perante a opinião pública, e fica ainda pior diante de expedientes como os que se observa, com a aparente inapetência dos seus representantes em cumprir o mandato que pediram ao povo. A repetição, a cada dois anos, deste malabarismo feito pelos deputados federais, estaduais e senadores apenas desestimula ainda mais o eleitorado, que se sente inclusive lesado não apenas porque os seus representantes trabalham pouco (sem qualquer prejuízo de seus vencimentos e vantagens), mas também pelo fato de verem os políticos que elegeram pulando de galho em galho, a cada dois anos, sem sequer pensar no povo. Pelo atual sistema brasileiro, os deputados (federais e estaduais) não representam um município ou região, mas o Estado. Ganham votos em todos os municípios, mas resolvem deixar tudo para buscar outra eleição para prefeito. E não há qualquer garantia de que, caso eleitos, voltem, em dois anos, a tentar de novo mandato no Legislativo. Descartam os votos que os elegeram, assim como muitos jogam fora as siglas partidárias pelas quais foram lançados, sem qualquer pudor ou preocupação.
Anuncia-se, ainda para este ano, a tentativa de aprovação de uma reforma política que pelo menos reduza os abusos cometidos por alguns políticos. Difícil será conseguir número para aprovar este tipo de mudança. E talvez mais complicado será acabar com esta forma de agir dos representantes do povo, que não parecem sequer se preocupar com a imagem que transmitem e com o desgaste que suas atitudes provocam junto ao eleitorado.





