Política irresponsável
Entre muitas outras coisas, a possibilidade de reeleição dos chefes do Executivo deveria permitir uma continuidade no trabalho desenvolvido pelo presidente, governadores e prefeitos, evitando-se aquela perda de tempo que ocorria na transferência do poder, mesmo que entre políticos do mesmo partido. A idéia era simples: em um mandato de quatro anos, o novo titular levava seis meses para se inteirar da situação e passava os últimos seis meses se preparando para entregar o cargo. Resultado: só havia três anos efetivos de trabalho. Com a reeleição, isso poderia ser modificado um pouco - principalmente se os chefes do Executivo obtivessem novo mandato -, ocorrendo então uma sequência e um ganho de tempo, o que é sem dúvida muito importante neste país que tanto tempo já perdeu ao longo de sua história.
Não é, porém, o que se tem visto nestes quase seis meses do novo mandato do presidente reeleito Fernando Henrique Cardoso. Em vez de uma sequência, de uma continuidade, o que se observa é uma sucessão de crises e um esvaziamento do governo que raramente se viu em tão pouco tempo. Com efeito, um chefe de Executivo eleito ganha, quase que naturalmente, um período de tolerância. E mesmo que não acerte, seu prestígio cai pouco, nos primeiros meses. O que está acontecendo no Brasil é diferente. FHC não precisava de tempo para se firmar. Afinal, fora reeleito com maioria absoluta. Está no poder há quatro anos e o que deveria fazer era dar continuidade ao seu trabalho.
Sem dúvida, a crise econômica que se abateu sobre o País, em janeiro, criou dificuldades adicionais. Não deve ter sido uma surpresa para o presidente. E ela por si não seria suficiente para derrubar seu prestígio, ainda mais porque o Brasil reagiu melhor até que o esperado às dificuldades iniciais da desvalorização da moeda. Sem dúvida, o desemprego se acentuou, o que provocou naturais reações entre os trabalhadores, mas é certo que o quadro geral da economia interna não chegou a atingir um nível tão negativo capaz de justificar o aumento do desprestígio presidencial - nem a sucessão de crises que vem se registrando no País ultimamente.
Aparentemente, a crise reside precisamente na reeleição, mais especificamente no fato de que como o chefe de Executivo só pode pleitear um segundo mandato, o que acaba abrindo a sucessão dos reeleitos assim que assumam. Chega a ser uma hipótese difícil de aceitar, mas quando se observa a cisão entre os membros dos partidos que apóiam o governo, a busca de espaço de políticos que não medem consequências para conquistá-lo, as críticas pesadas dos próprios aliados ao presidente e as lutas entre os que participam da coligação, percebe-se que a hipótese é razoável. Por outro lado, a oposição também busca ampliar sua base, igualmente cuidando do futuro. Em síntese, os políticos estão pensando em 2002, na próxima eleição presidencial. E estão pensando (e agindo) erradamente.
Em política, sempre se pensa nas próximas eleições. Todavia, salta aos olhos que os resultados dos pleitos futuros se forjam no dia-a-dia. Fernando Henrique Cardoso se elegeu até com facilidade para o primeiro mandato em função dos resultados obtidos pelo plano de estabilização da economia - da qual foi o mentor. E se reelegeu agora porque, apesar de tudo, a situação do País pareceu boa à maioria do eleitorado. Mas é certo que em um clima de guerra entre os parceiros, com todos querendo tirar vantagem, a resultante pode ser perniciosa para todos. Os políticos, da situação e da oposição, precisam acabar com as mesquinharias, passando a agir com patriotismo e discernimento, para acabar com este danoso clima de crises em que o Brasil está mergulhado.

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