Editorial - Poder inebriante
O fenômeno é mais comum do que se possa pensar. O cidadão se destaca na vida comunitária, revela todos os requisitos que se pode exigir de alguém com espírito público, é líder, bem intencionado, atuante. Então, naturalmente, esta pessoa se lança na política. Como corolário natural de um trabalho meritório, acaba eleito, tornado representante do povo, indo para Curitiba ou, o sonho final e natural, Brasília. Daí, se transforma. Aquele idealista desaparece. Em seu lugar surge um político, igualzinho ao molde de tantos outros, falando muito sem dizer nada, fazendo pouco, reclamando das críticas da imprensa. A impressão, notadamente em relação aos políticos que o eleitor envia a Brasília, é a de que existe alguma coisa nos ares do Planalto que modifica as pessoas.
Não é, porém, o clima do Planalto, assim como não é o das capitais o responsável por este tipo de transformação que atinge ponderável parcela dos políticos. A causa principal disto é o poder. Pois, como é sabido, o poder é inebriante. Pode ser pior, em seus efeitos, do que a droga mais forte. Atribui-se a Ulysses Guimarães a afirmação segundo a qual o poder é afrodisíaco. Na verdade, é isto e muito mais. E quanto mais poder tenha uma pessoa, maior será a embriaguez e mais complicada ainda a situação. Não por outro motivo é que ocorrem tantas desilusões entre os eleitores, um número imenso de gente com as mais puras e elevadas intenções acaba se desviando, perdendo o rumo, decepcionando o povo e, muitas vezes, afundando como ser humano, quase sem perceber o que ocorre.
Tome-se, por exemplo, um político da estatura do ministro José Serra, com uma carreira brilhante e que, inclusive, tem sido apontado como possível candidato do Governo à sucessão de Fernando Henrique Cardoso (isto, naturalmente, se FHC não encontrar uma brechinha legal para tentar um terceiro mandato). Serra, ocupando um Ministério importante como o da Saúde - e, infelizmente, sem o apoio que merece - sai a campo esta semana para fazer um candente pronunciamento de crítica contra o próprio Governo a que pertence. Denunciou o desvio das verbas da CPMF, que deveriam ser usadas só para a saúde, questionou os cortes anunciados no ajuste fiscal, enfim fez um discurso quase que de oposição. A reação do chefe do Executivo, o que é até natural, foi forte. Então, Serra recuou! Não chegou a desmentir o que afirmou (uma prática bastante comum entre os políticos que costumam culpar a imprensa pelos seus destemperos), mas usou a tradicional política dos panos quentes para tentar minimizar a crítica. No fim, passou foi a impressão de que, como tantos outros antes dele, prefere engolir sapos a deixar o poder.
Aparentemente, havia duas alternativas ante a denúncia de José Serra: ou o Executivo fazia um mea-culpa e não só a aceitava mas devolvia o dinheiro da CPMF à Saúde, ou o ministro pedia a conta e ia embora. Serra descobriu uma terceira saída: desculpou-se como pôde, deixou o dito pelo não dito e segue ministro. Diferente, por exemplo, de Adib Jatene, que o antecedeu no cargo, que praticamente inventou e impôs a CPMF, visando obter recursos para a Pasta e que quando viu que não iria conseguir o que reclamava foi embora. Jatene parece, na questão, exatamente o oposto daqueles que se deixam inebriar pelo poder. Não nasceu ministro, chegou ao cargo pelos seus méritos e por seu idealismo. E quando viu que não poderia fazer o que pretendia (que era garantir saúde melhor aos brasileiros), preferiu deixar o cargo. Existissem mais Jatenes do que Serras, fossem nossos políticos abstêmios que não se embriagassem pelo poder, seguramente o Brasil seria um lugar melhor para se morar e viver. Com saúde.





