Sem reações violentas - o que chega até a surpreender - anuncia-se o fim do ‘‘reinado da Petrobrás’’, com a instalação da Agência Nacional de Petróleo, que assume o controle sobre questões relativas ao combustível. Trata-se, sem dúvida, de uma enorme mudança, feita num clima de bom senso em que predominou a visão objetiva face a uma realidade que também clamava por mudanças. Inegavelmente, como destacou o diretor-geral recém-empossado da ANP, David Zylbersztajn, a Petrobrás prestou (e ainda presta) um enorme serviço ao País. É importante não apenas insistir neste ponto mas também relembrar as grandes lutas que culminaram com a criação da empresa, nos importantes anos 50, época em que o Brasil tentava buscar novos caminhos para se afirmar em um mundo que começava a se transformar de modo galopante.
A questão do petróleo, no Brasil, é digna de rememoração, inclusive porque constituiu, em uma certa época, tema de candentes discussões. Nos anos 30 e, principalmente, 40, quando o petróleo assumiu de vez o papel de propulsor da economia mundial, o Brasil se deixou ficar em posição subalterna. Por muitos anos, inclusive, ‘‘entendidos’’ chegavam a garantir que o Brasil, pura e simplesmente, não tinha petróleo, apesar de sua extensão territorial. Monteiro Lobato, escritor polêmico que defendia com unhas e dentes uma política nacional voltada para a exploração do petróleo e do ferro, se mostrava absolutamente irado ao comentar as informações sobre a falta de petróleo em terras brasileiras, estranhando, entre outras coisas, que países vizinhos (inclusive na região amazônica) encontravam o ‘‘ouro negro’’ e o Brasil não.
Quando, afinal, não foi mais possível manter a idéia de que Deus havia dado tudo ao Brasil, menos esta riqueza, surgiu uma nova onda: de fato, havia petróleo em terras brasileiras, mas a sua exploração era cara. Melhor era importar. O ‘‘ouro negro’’ que existia à flor da areia nas terras do Oriente Médio, todas exploradas pelas nações colonialistas, era farto e barato. Logo, para que se iria querer petróleo nacional? Este outro engodo prevaleceu mesmo depois que, em seguida a uma dura campanha, surgiu a Petrobrás, baseada principalmente no nacionalíssimo eslogam segundo o qual ‘‘o petróleo é nosso’’. Devia ser nosso, só que não se produzia tanto quanto era necessário, ainda dentro da antiga teoria segundo a qual era muito mais negócio comprá-lo, a preço de banana, lá fora. Até que veio o ‘‘oil schock’’, dos anos 70, surgiu a OPEP, os países produtores deixaram de ser colônias e descobriram que o mundo enriquecia com o produto deles. Foi então que o petróleo nacional passou a ser importante e o Brasil passou a procurá-lo, e a encontrá-lo.
Mas é certo que não produz, ainda, tanto quanto precisa. Como é fácil perceber, também, precisava realizar esta outra grande mudança, que surge com a criação da Agência Nacional do Petróleo. A alteração há muito se fazia necessária, e se consubstancia até na frase do próprio diretor geral da empresa: ‘‘O petróleo é vosso’’ disse ele, significando este ‘‘vosso’’ o povo, o Brasil. Não é da Petrobrás, dos cartéis. É de todos nós e deve ser pesquisado, encontrado, refinado e produzido para servir ao País, garantindo uma das bases fundamentais para o salto de crescimento que se reclama.
A energia - e isto ficou muito claro a partir do choque do óleo nos anos 70, é fator básico para os povos e países em sua trajetória. Quem não a produz, está fadado a fracassar. É óbvio que uma política energética não se limita ao petróleo, mas é certo, também, que o Brasil tem muito óleo a tirar de sua terra (e de suas águas). E deste óleo, fará a base para atingir seu destino.

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