Quando o Governo editou o pacote de novembro, os ‘arautos do apocalipse’, que parecem estar sempre de plantão para antecipar tragédias e desgraças, chegaram ao êxtase e saíram por aí trombeteando o fim dos tempos. Mais precisamente, o fim do plano de estabilização, a derrocada total da economia, a tragédia absoluta que iria marcar o final do ano, confirmando, conforme insistiam, as projeções mais pessimistas que vinham fazendo desde o começo do programa que produziu o real. Como nunca são cobrados - e se isto ocorre sempre escapam pela tangente, dizendo que fatores aleatórios conspiraram para evitar a tragédia anunciada -, eles podem se esbaldar com previsões sombrias, verdadeiros abutres antecipados que aproveitam cada momento para lançar seu brado negativista.
Ocorre que, uma vez mais, as previsões falharam. O que, diga-se, acontece há muito mais tempo. De fato, o grupo dos que só antecipam desgraça existe há décadas, sempre sem sucesso. O ano que terminou registrou um movimento comercial superior ao do ano precedente, com um detalhe ainda mais importante: a inflação não se desgarrou. Ao contrário, em muitos casos o movimento maior implicou em gasto menor. É certo que alguns setores registraram certa alta, até natural, conforme as leis do mercado: procura maior, preço sobe. Nada, porém, que possa assustar em relação ao futuro do combate à inflação, que deve manter-se em baixa.
Diante do bom resultado observado, tanto no comércio quanto na indústria, é de prever uma melhoria neste começo do ano. Mas, ao contrário, os pessimistas de plantão sequer se envergonham de anunciar que, apesar do bom desempenho do final do ano, existe o perigo de recessão neste primeiro trimestre de 98. Esta mesma ameaça, aliás, tinha sido feita após o pacote de novembro: recessão brava no começo do ano.
Realmente, existiam, mesmo antes das medidas de novembro, alguns sinais preocupantes em relação ao emprego, situação há muito detectada. Entretanto, há a considerar que o resultado do fim do ano produz fatos positivos capazes de modificar este quadro. Há setores em dificuldades, entre os quais a poderosa indústria automobilística. Mas há outros em crescimento, como o caso das telecomunicações, que devem apresentar desempenho fantástico neste 98. E mesmo o setor automobilístico pode (e deve) enfrentar as dificuldades previstas com uma política concreta de conquista de mercados, buscando investir mais para a exportação.
Ademais, não se pode deixar de observar que as mudanças estruturais em curso no Brasil e no mundo indicam que é necessária adaptação aos novos desafios desta fase de transição. E o Brasil vem acompanhando esta tendência, inclusive com os incentivos que vêm sendo dados à exportação e às pequenas e microempresas, sem dúvida fatores fundamentais para a virada que se observa na estrutura mundial. Ainda que as coisas não tivessem sido tão boas no final do ano, do ponto de vista comercial, seria possível confiar em uma melhoria - mesmo que lenta -, no correr deste 98. Mas com o resultado obtido pelo comércio e pela indústria em dezembro a confiança em uma situação ainda melhor ganha mais base.
Anúncios pessimistas não mudam, felizmente, a situação. Todavia, a impressão é a de uma orquestração com interesses que nada têm com as verdadeiras necessidades da população. E devem apenas servir como alerta para os brasileiros que hoje, mais do que em qualquer outra época, sabem que o futuro não depende de projeções, mas da coragem que o povo tem demonstrado nos últimos anos.

mockup