Editorial - Pessimismo pernicioso
O comércio paulista está mais pessimista com o Plano Real. A nota dada pelos comerciantes de São Paulo ao real caiu para 5,15 em fevereiro, ante 5,86 atribuída em janeiro, numa escala de 1 a 10, segundo Pesquisa de Opinião do Comércio (POC), realizada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP). Esta é a nota mais baixa desde que o plano foi criado, há quatro anos. O estudo ressalta que a avaliação do real pelos comerciantes está cada vez mais perto de uma nota vermelha. A POC é feita mensalmente pela entidade em entrevistas com cerca de 800 lojistas paulistanos. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), divulgado pela FCESP na segunda-feira, também registrou queda de 22,23% em fevereiro em relação a janeiro, a maior queda observada desde março de 95, quando o indicador recuou 14,37%. A opinião dos empresários do comércio, com relação ao futuro do País e de suas próprias empresas, também está prejudicada em comparação com a pesquisa realizada há um mês. Os dados mostram que em fevereiro a avaliação de como serão os próximos 12 meses em relação aos 12 últimos para o País foi considerada pior para 36,91% dos pesquisados ante 30,13% no mês anterior. A mesma pergunta feita com relação ao futuro da empresa pesquisada também registrou piora de 30,08% em fevereiro em comparação a 20,52% registrado em janeiro.
Este quadro de pessimismo, que não deve diferir muito em relação a todo o País, é reflexo natural de uma situação por si complicada e que se agrava diante da falta de uma preparação para a crise. O sucesso do Plano Real, a excepcional marca obtida no ano passado em termos de queda da inflação e, sem dúvida, a indisposição de se aprofundar a análise das falhas que vinham ocorrendo e que prenunciavam as dificuldades que surgiram neste início de ano contribuem para isto. Muita gente dá a impressão de ter despertado, a partir do início da desvalorização do real, de um sonho, mergulhando em um pesadelo. E isto conduz naturalmente a esta projeção negativa para o futuro, até porque muitos especuladores estão aproveitando ao máximo a situação.
É curioso observar como a opinião pública vem sendo conduzida neste momento. As notícias sobre oscilações nas Bolsas, daqui e de fora, que vinham sendo o principal assunto nos últimos tempos, estão sendo substituídas pelas variações na cotação do real. Mais grave é que raramente as informações sobre a queda no valor do real, em face do dólar, são completadas por explicações corretas. Os valores são lançados sobre o público, assim como ocorria com as quedas nas Bolsas da Ásia, da Rússia ou daqui, sem maiores explicações, dando a nítida impressão de se pretender formar precisamente o clima de pessimismo e temor que é o terreno ideal para os que conseguem tirar proveito de todas as crises.
Perde-se de vista com isto o mais importante. O comércio paulista dá notas ao real como um professor avalia os alunos sem levar em conta o fato de que, muitas vezes, o inadequado desempenho deles reflete as falhas do mestre. Assim como os méritos do sucesso do plano eram de todos, a responsabilidade por esta queda deve ser assumida em comum. Isto não é, porém, ainda, o mais importante. O de que se trata é de fugir ao ardil dos que plantam crise para lucrar no caos. Se é certo que o real estava sobrevalorizado antes do que ocorreu em janeiro, refletindo uma política de governo, é fácil ver que hoje está sendo pressionado pela especulação. É preciso manter a tranquilidade e buscar as saídas que existem, tanto para o comércio quanto para a indústria, a produção, o País todo enfim. Isto implica em deixar o terreno da especulação e insistir em medidas de estímulo ao trabalho e à produção, os únicos caminhos para valorizar o real e acabar com o pessimismo.





