Pesquisas realizadas nos Estados Unidos revelam que ponderável maioria da população não apenas apóia o presidente Bill Clinton, mas também se manifesta contra qualquer tipo de sanção em virtude de seu caso com a ex-estagiária Monica Lewinsky. Entretanto, outro levantamento feito esta semana, apenas com norte-americanos que pretendem votar, revela um dado diferente: segundo a pesquisa, 53% daqueles cidadãos entendem que o Congresso deve iniciar um procedimento de impeachment contra o presidente. Não é gente que quer afastar Clinton, mas que entende que ele deve ser julgado pelo Legislativo.
Nos Estados Unidos, como se sabe, o voto é facultativo. Vota quem quer e, de modo geral, cerca de metade da população em condições se alista e vota. Sob certo aspecto, é uma situação democrática porque o voto, um direito do cidadão, não deveria ser obrigatório. Entretanto, os dados desta pesquisa colocam uma curiosa questão: a maioria da população é favorável ao presidente, conforme tem sido constatado nos últimos tempos; mas a maioria dos que votam já não têm esta mesma opinião. Que maioria deveria ser levada em conta?
Do ponto de vista estritamente democrático, aquele segundo o qual a maioria vence, é certo que se poderia considerar a primeira hipótese. Mas quando se pensa em termos do que é efetivamente a ação democrática, que exige a natural e firme participação do povo, pelo menos através do voto, tem-se que a maioria que deveria ser levada em conta era a dos eleitores que vão às urnas (porque lá também há os inscritos que não participam do processo). De outro modo, ter-se-ia uma espécie de democracia movida a pesquisa, que não é, sob qualquer aspecto, a ideal.
A verdade é que lá como cá, no final, a questão é a mesma: o fato, por exemplo, de o voto entre nós ser obrigatório, não significa que o eleitor tenha maior disposição que o norte-americano. Ao contrário, entre nós a falta de vontade de exercer o direito de votar é manifestada pelos votos brancos e nulos. Entretanto, este procedimento, assim como a simples ausência dos eleitores nos países em que o voto é facultativo, constitui uma verdadeira abdicação do direito de participar nas decisões sobre a vida e o futuro do país. E quando se percebe, como no caso norte-americano, que há diferença entre a opinião dos que não querem votar e dos que o fazem, é possível sentir como é importante a participação. Os não-votantes dos Estados Unidos, por mais que apóiem o presidente, não têm peso real na vida pública, exatamente porque se omitem.
No Brasil, felizmente, não estamos enfrentando este tipo de escândalo rasteiro e imoral que atinge os norte-americanos. Entre nós, a questão é outra, é a participação no pleito que vai definir nossos destinos para esta passagem de milênio. As pesquisas revelam tendências, como nos Estados Unidos, mas a decisão real será a que o povo vai adotar nas urnas. Eximir-se desta participação é, em princípio, a abdicação individual de um direito que foi conquistado pelos seres humanos ao longo de séculos de luta, com muitos e imensos sacrifícios. Ademais, a ausência e, no caso brasileiro, o voto branco ou nulo, prejudicam a própria representação política e enfraquecem a democracia.
Responder a pesquisas, discutir pelas esquinas, criticar os políticos, falar mal dos governantes, isto tudo é agradável e é bom que haja clima para tais (e tantas outras) atividades, por causa da democracia. Mas o que vale mesmo é a participação real que não se limita, claro, ao voto, mas que tem no ato de votar seu momento definitivo. E é só através desta participação, consciente e objetiva, que o ser humano não apenas expressa seu desejo, mas dá sua parcela para fortalecer a democracia.

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